“Il Sorpasso” só não se chamou no Brasil “O Boa Vida” porque já se tinha dado esse nome a um belo filme de Fellini (original “Il Vitelloni”). Mas a julgar pelo argumento de Ettore Scola, roteiro de Scolla, Rugero Maccari e Dino Risi, o tipo-titulo, vivido com a extroversão que se pedia de Vittorio Gassmann, é na verdade “aquele que sabe matar”. Justo pensar assim, pois no volante de um conversível o personagem ultrapassa carros num a estrada tortuosa e à beira de abismo esbanja um tipo de humor que estarrece ao invés de deixar risadas. Ao lado dele, motorista tresloucado, viaja o estudante de direito chamado Roberto (Jean Louis Trintignant) a quem conheceu horas antes da viagem, logo se tornando amigo e na jornada a caminho de Toscana mostrando os seus cantos e uma filha com quem mantém pouco contacto. O tímido Roberto é quem vai levar a pior nesse “road movie” raríssimo em termos de cinema europeu.
O interessante no roteiro é que o herói não bebe. Se passasse por uma barreira policial podia usar o bafômetro sem susto. A velocidade e a porfia pelo perigo fazem parte de um temperamento que exorta diversos tipos de frustração. O filme de Dino Risi não vai dentro desse complexo afetivo nem quer ser uma obra de Antonioni como o próprio Bruno, nome do personagem de Gassman, diz ser soporífera (ele diz: “Fui ver “O Eclipse” de Antonioni: dormi o tempo todo”).
Na sua opção pela velocidade, que se mostra na temática sugerindo um homem sofrido que deseja esquecer seus problemas, está um filme mais feliz do que muitos de propensão introspectiva feitos na Itália & adjacências. É muito feliz o texto de Scola, as falas de Maccari, e a direção coesa de Risi, um dos mestres da comédia nos anos 50,60 e 70. Por seu conjunto harmônico, “Il Sorpasso” é uma viagem vida afora com um destino fatal. Mas, no caso, para quem vai de carona. E se pergunta o que mais dói: um ferimento num desastre ou a consciência de que alguém morreu por sua culpa. Mesmo assim, não é só isso de que se trata o filme. É um tempo, um espaço, dois homens que forçam a idéia de se divertir num certo feriado. Se a câmera se aprofundasse (e não quer isso) veria que nem Bruno nem Roberto estão dispostos a correr estrada afora. Um quer se reencontrar vazando euforia, outro quer achar o seu caminho profissional estudando-e com isso relaxando a sua timidez crônica. O encontro dessas figuras tão diversas em temperamento gera um quadro improvável nos planos em que os dois riem na corrida perigosa. Mas é nesse contraste que está a base do filme. Viver perigosamente é tentar esquecer na mesma velocidade. Houve quem comparasse a “Easy Rider” mas o aspecto cultural difere. No filme americano está uma falange de uma geração indisposta. Aqui, no italiano, são exemplos isolados em suas próprias problemáticas sem liame com a condição sócio-politica vigente. A cada um a sua qualidade inclusive como cinema.
Dino Risi, morto ano passado, foi um dos bons diretores italianos de uma época de ouro. Seu nome está ao lado de Mario Monicelli em tantos títulos memoráveis. Mário ainda vive. Risi fez rir como ele mesmo chegou a dizer: “a forma de se melhor castigar”. “Il Sorpasso” é um exemplo. (Pedro Veriano)
terça-feira, 13 de outubro de 2009
sábado, 10 de outubro de 2009
"AQUELE QUE SABE VIVER" DE DINO RISI NA SESSÃO CINEMATECA EM NOVEMBRO
"AQUELE QUE SABE VIVER"Original: Il Sorpasso- Itália,1962
Direção de Dino Risi
Roteiro de Risi, Ettore Scola e Ruggero Maccari.
Fotografia de Alfio Contini
Música de Riz Ortolani
Elenco: Vittorio Gassman, Jean-Louis Trintignant, Catherine Spaal, Cláudio Gora.
Resumo do argumento: O play-boy de meia idade, Bruno(Gassman) conhece o estudante de direito Roberto (Trintignant) e com ele executa uma viagem de recreio pelas estradas de Roma e Toscana. Nesse período as personagens são reveladas e uma ironia cerra seus destinos.
Importância Histórica: Dino Risi foi um dos mais prolíficos diretores de comédias na Itália e um dos mais engenhosos. Certamente é um nome subestimado pela critica, pois deixou obras-primas como esta e ainda “Férias à Italiana”(L’Ombrolone), “Perfume de Mulher”(Profumo di Donna), esta refilmada com Al Pacino, e “Este Crime Chamado Justiça”(In Nome del Popolo Italiano). Aqui ele faz um “road movie” diferente, onde a comédia palmilha cada quilometro de estrada na irreverência do motorista (Gassman) e a tragédia espera no final. Também é um dos bons filmes de Gassman e ele mesmo achava isso. No roteiro está Ettore Scola mais tarde o diretor de “Nós que nos Amávamos Tanto”, “O Baile” e “Feios,Sujos, e Malvados”.
SESSÃO CINEMATECA
"AQUELE QUE SABE VIVER"
Cine Olympia
Em Novembro (data a ser definida)
Horário : 16:00 h
Entrada Franca
Programação : ACCPA
"PUNHOS DE CAMPEÃO" NO CINECLUBE ALEXANDRINO MOREIRA DIA 19/10/09
"PUNHOS DE CAMPEÃO "Original: The Set-Up(EUA,1949)
Direção de Robert Wise.
Roteiro de Art Cohn baseado no poema de Joseph Moncure March.
Fotografia de Milton Krasner
Musica de C. Bakaleinikoff
Elenco: Robert Ryan, Audrey Totter, George Tobias, Alan Baxter, Wallace Ford, Percy Helton.
Resumo do argumento: O boxeador Bill “Stocker”Thompson acha que a sua carreira, depois dos 35 anos, depende dessa noite. Mas a mulher dele não acredita mais nisso. Bill já é conhecido como “saco de pancadas”. E na almejada luta recebe do treinador ordem para perder. Seria uma “barbada” bem paga. Tanto que a cadeira da esposa fica vazia. Mas o atleta consegue vencer. Na rua, o gangster apostador o espera com os seus cúmplices. Bill é alvo de violência, inclusive quebrando-lhe as mãos.
Importância Histórica: Este pequeno filme da RKO onde o tempo de ação é o tempo de projeção (focaliza-se um relógio na praça, logo no inicio, onde se pode acertar o tempo, pois o mesmo relógio no mesmo ângulo, no final, dá a hora exata que passou), marcou época por ser um raro trabalho cinematográfico extraído de um poema que se fez digno dessa origem. O ator Robert Ryan tem um de seus melhores momentos em uma carreira de muitos bons filmes. Uma referência obrigatória quando se trata do gênero.
SESSÃO ACCPA/IAP
"PUNHOS DE CAMPEÃO"
Cineclube Alexandrino Moreira
(Auditório do Iap - Instituto de Artes do Pará / Ao lado da Basílica de Nazaré)
Segunda-feira Dia 19/10/09
Horário : 19 h
Entrada Franca
Após o filme, debate entre o público presente e críticos da ACCPA
Programação : ACCPA
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
"CORAÇÃO VAGABUNDO" NO MOVIECOM ARTE DE 09 À 15/10/09
"CORAÇÃO VAGABUNDO"
Direção : Fernando Andrade
Duração: 65 minutos
Genêro: Documentário
Classificação Etária: 12 anos
Sala: Moviecom Castanheira Sala 04 - Projeção Digital - De 09 à 15/10/09
Sala: Moviecom Castanheira Sala 04 - Projeção Digital - De 09 à 15/10/09
Horário : 16:00 h
Sinopse : “Coração Vagabundo” registra a turnê “A Foreign Sound” de Caetano Veloso, por São Paulo, EUA e Japão. Além das imagens das apresentações, o diretor Fernando Andrade deixa o músico livre para dissertar sobre a saída de sua cidade natal, o sucesso no Exterior, a relação com Almodóvar entre outros assuntos. O filme traz depoimentos de Pedro Almodóvar, Michelangelo Antonioni e David Byrne.
APOIO : ACCPA
domingo, 4 de outubro de 2009
MOVIECOM ARTE - 1 ANO

MOVIECOM ARTE - 1 ANO
Ano passado, a rede de cinemas Moviecom iniciou em Belém o projeto Moviecom Arte, uma de suas melhores iniciativas do ponto de vista cultural para cidade de Belém. Dentro do projeto, a idéia é selecionar filmes em cópia digital para exibição de filmes que dificilmente seriam exibidos dentro do circuito comercial. Com o apoio da ACCPA (Associação dos Críticos de Cinema do Pará), o critério de seleção dos filmes se baseia em títulos que foram premiados e/ou participaram de festivais importantes de cinema e filmes que foram elogiados pela crítica nacional ou internacional. Este ano, para exibição no projeto, também serão considerados filmes nacionais que foram elogiados e participaram de festivais nacionais e internacionais. Com esse projeto, a rede Moviecom procurou criar dentro da sua grade de programação um espaço para o cinemaníaco mais exigente que está constantemente procurando o melhor do cinema, que nem sempre se encontra no esquema do cinema comercial. Com isso, aos poucos, o Moviecom Arte tem conseguido formar uma platéia cativa, sempre interessada na sua programação e claro, sempre querendo mais.
Como uma forma de valorizar o projeto, relembro ao leitor os filmes exibidos entre agosto de 2008 até setembro de 2009:
- “O Escafandro e a Borboleta”de Julian Schnabel
- “Persepólis” de Vincent Paronnaud e Marjane Satrapi
- “Sicko : SOS Saúde” de Michael Moore
- “Santiago” de João Moreira Salles
- “Antes que o Diabo Saiba que Você está Morto” de Sidney Lumet
- “A Banda” de Eran Kolirin-“La Leon” de Santiago Otheguy
- “Longe Dela” de Sarah Polley
- “A Morte de George W. Bush” de Gabriel Range
- “Paranóia Americana” de Jeff Renfroe
- “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias” de Cristian Mungiu
- “Allegro” de Christoffer Boe
- “Império dos Sonhos” de David Lynch
- “Caótica Ana” de Julio Mendem
- “Gomorra” de Matteo Garrone
- “Lemon Tree” de Eran Riklis
- “Ninho Vazio” de Daniel Burman
- “Brown Brunny” de Vincet Gallo
- “Ainda Orangotangos”de Gustavo Spolidoro
- “A Dança da Vida” de Juan Zapata
- “Cashback” de Sean Ellis
- “Glória ao Cineasta” de Takeshi Kitano
- “30 Quadros por Segundo” de Ed Radtke
- “Lanchonete Olympia” de Steve Barron-
-“Gesto Obsceno”de Tzahi Grad
-“Hannah sobe as Escadas” de Joe Swanberg
- “White Palms” de Szabolcs Hajdu
- “O Carregador de Almas” de Conrad Clark
- “O Silêncio de Lorna” de Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne
- “Um Homem Perdido” de Danielle Arbid
- “Estamos Bem Mesmo sem Você” de Kim Rossi Stuart
- “Um Táxi para a Escuridão” de Alex Gibney
- “Entre os Muros da Escola” de Laurent Cantet
- “Novo Século Americano” de Massimo Mazzucco
- “O Sol” de Aleksandr Sokúrov
- “Alexandra” de Aleksandr Sokúrov
- “Canções de Amor” de Christophe Honoré
- “Inútil” de Zhang Ke Jia
- “Desonra” de Masahiro Kobayashi
- “Vocês Os Vivos” de Roy Andersson
- “A Partida” de Yojiro Takita
- “Vitus” de Fredi M. Murer
- “Moscou” de Eduardo Coutinho
- “De Repente Califórnia” de Jonah Markowitz
- “Apenas o Fim” de Matheus Souza
Numa avaliação geral, foram exibidos filmes de várias nacionalidades que revelaram o talento de novos cineastas e confirmaram a força do cinema como arte. Esperando contar com uma maior participação do público neste segundo ano do projeto, para os próximos meses estão agendados para exibição dentro do Moviecom Arte os seguintes filmes:
- “Palavra Encantada” de Helena Solberg
- “Anticristo” de Lars Von Trier
- “A Onda” de Dennis Gansel
- “A Janela” de Carlos Sorín
- “Simonal : Ninguém sabe o Duro que eu Dei”de Claudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal
- “Coração Vagabundo” de Fernando Grostein Andrade
- “A Era da Estupidez” de Franny Armstrong
- “O Nome dela é Sabine” de Sandrine Bonnaire
- “Reze para o Diabo Voltar ao Inferno” de Gini Reticker
Marco Antonio Moreira
"AMANTES" DE JAMES GRAY
“AMANTES” de James Gray. Com Joaquin Phoenix, Gwyneth Paltrow e Vinessa Shaw. Um homem amargurado com o fim de seu noivado de dois anos, procura se encontrar novamente, perdido entre sentimentos de decepção e rejeição. Até que conhece duas mulheres de diferentes comportamentos que chamam a sua atenção e começam a representar uma nova direção na sua vida. Nesta pequena introdução a história de “Amantes” de James Gray, o leitor não tem noção do resultado simplesmente belo que o diretor conseguiu. Poucas vezes vi um filme tão bem dirigido, onde todos os detalhes se juntam para criar um drama de busca, de solidão, de dúvida sobre a vida e o amor. O personagem principal transmite uma melancolia, uma desesperança nos primeiros minutos do filme, de forma avassaladora (e muito se deve a atuação genial de Joaquin Phoenix). Para ele, tudo está perdido. Ou não. Até que encontra primeiro a mulher ideal. Atenciosa, perfeita, equilibrada, tudo o que ele precisa naquele momento. Mas num segundo momento, ele opta por um relacionamento quase que impossível, de difícil alcance, com uma mulher muito parecida com ele: perdida, em dúvida, à mercê das circunstâncias. Mas é nesta mulher que ele vai tentar achar seu amor perdido, seu amor rejeitado que tanto lhe fez sofrer. Neste momento, este homem me lembra inúmeros personagens de filmes fantásticos que de alguma forma abordaram a questão do amor perdido, da busca e da esperança em viver. Particularmente, lembro do papel de James Stewart na obra-prima de Alfred Hitchcock, “Vertigo – Um Corpo que Cai” que assim como o protagonista de “Amantes”, perde seu amor e tenta reconstruí-lo de forma idêntica numa outra mulher, perdendo-a novamente para finalmente se reencontrar. Este reencontro em “Amantes” não é necessariamente feliz. Ao optar por viver e superar uma nova perda, ele vai tentar um novo relacionamento, distante do que desejava, arriscando melancolicamente na possibilidade da felicidade, assim como todos os personagens do filme, desde a mãe do personagem principal até o amante de uma das mulheres que lhe provoca interesse. Bem construído, com cenas muito bem idealizadas e sensivelmente bem filmadas pelo diretor James Gray, “Amantes” é simplesmente belo. Simples ao buscar mostrar personagens em busca de suas verdades e amores, e belo por mostrar que é possível buscar o amor e ser feliz, idealizando sua forma ou não. Ainda impressionado com o filme, desde já, sem dúvida é um dos melhores filmes que vi este ano em nossos cinemas.
Marco Antonio Moreira
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
"SIMONAL:NINGUÉM SABE O DURO QUE EU DEI" NO MOVIECOM ARTE DE 02 À 08/10/09
“SIMONAL:NINGUÉM SABE O DURO QUE EU DEI"Em Exibição de 02 à 08/10/09
Gênero: Documentário
Diretor: Claudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal
Tempo: 86 mINUTOS
Sala : Moviecom Castanheira Sala 04
Sinopse: "História da ascensão e queda de Wilson Simonal (1939-2000), cantor que conseguiu status de estrela numa época em que no Brasil isso era raridade para artistas negros. De origem humilde, ele ganhou destaque na televisão nos anos de 1960, rivalizando com o domínio de Roberto Carlos e outros ídolos da Jovem Guarda. No auge da fama, dividiu o palco com a cantora Sarah Vaughan, em visita ao Brasil. Acompanhou a seleção brasileira ao México na conquista do tricampeonato, em 1970, e até arriscou a reflexão política sobre a negritude, na canção "Tributo a Martin Luther King", composta em parceria com Ronaldo Bôscoli. Um incidente nunca esclarecido, envolvendo agentes do DOPS e um ex-empregado seu, lançaram sobre ele um processo criminal e a suspeita de que fosse delator para as forças de repressão."
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