sexta-feira, 20 de setembro de 2013
"O ATAQUE"
Roland Emmerich é um cineasta alemão radicado em Hollywood que se especializou em “disaster movie”, ou seja, filmes sobre cataclismos que impressionam pela grandiosidade aparente do processo de produção. O seu primeiro trabalho exibido em Belém, no Cine Líbero Luxardo dos primeiros anos, já se posicionava nesse gênero: “O Principio da Arca de Noé”(Das Arche Noah Pinzipe, Alemanha, 1984). Ali uma estação espacial fazia a guerra entre nações, a lembrar do que o presidente norte-americano Ronald Reagan propunha, como seja a destruição de armas inimigas através de engenhos colocados na orbita da Terra(o programa chamado na época de “guerra nas estrelas”). Logo embarcando para os EUA, Emmerich se notabilizaria por filmes como “Independence Day”(1996), “Godzilla”(1998), “O Dia Depois de Amanhã”(2004), “10.000 AC”(2008) e “2012”(2009). Só em 2011 tentaria mudar de gênero com “Anônimo”(Anonimus) a historia de um nobre da corte a rainha da Inglaterra, Elizabeth I, que teria escrito as peças assinadas por William Shakespeare. Um bom filme que por aqui só chegou em cópia DVD e nos canais de TV por assinatura.
Agora Emmerich apresenta “O Ataque” (The White House Down) onde expõe uma invasão na Casa Branca, em Washington, com o presidente dos EUA mantido refém de um de seus assessores guinado a mentor de um golpe pretensamente por vingança de ter perdido o filho em guerra no Oriente Médio. O roteiro de James Vanderbilt (o mesmo de “Zodiaco”, de David Fincher), lembra o recente “Invasão à Casa Branca”(Olympus Has Fallen, 2011) de Antoine Fuqua. A diferença, numa leitura superficial, é de que o presidente de “Ataque”, representado por Jamie Foxx, é mais valente, conseguindo derrubar alguns adversários. Mas o que ressalta o novo filme são dois fatores: primeiramente as inclusões de bom humor que não são muito comuns em histórias de catástrofes (mesmo filmadas por Emmerich). Depois, a motivação política do enredo. Não é bem o fato de o fomentador da rebelião ser um pai amargurado pela morte do filho e, além disso, ser um homem condenado por um tumor maligno no cérebro (papel ingrato para o veterano James Woods). Na verdade há uma resposta à negação de apoio à indústria bélica. É possivel pensar, então, que muitas campanhas belicosas dos EUA (e de outras nações do chamado primeiro mundo) derivam do protecionismo que o governo devota aos fabricantes de armas. Fica evidente o que alguns historiadores afirmam que um dos meios usados por Roosevelt para combater a crise econômica iniciada em 1929 foi impulsionar a indústria bélica, fato que serviria para quando os EUA resolveu entrar na 2ª Guerra Mundial.
O filme de Roland Emmerich tem essas brechas curiosas. Para o espectador é mais divertido ver as peripécias de Cale (Channing Tatum) candidato preterido a assessor do presidente, lembrando os superherois da Marvel no modo como escapa de balas e explosões, pulando de alturas enormes e ainda conseguindo subverter armadilhas inimigas para chegar perto de sua filha menor, Emily (Joey King), no fim das contas a heroína que posta no youtube cenas da invasão com as imagens dos revoltosos, como consegue evitar que aconteça uma guerra nuclear acenando uma bandeira para que os aviões, convocados por um mecanismo que só o presidente tem acesso mas, no caso, foi monitorado por outro, abortem a operação de bombardeio. Essa capa de aventura & ação pode ocultar a critica política do roteiro original, mas o contraste do que se vê no inicio como as dependências faraônicas da Casa Branca e, afinal, a vulnerabilidade que se estende ali e ao mundo resta como o tempero que torna tolerável o espetáculo.
“O Ataque” não deixa de fora a representação que se faz dos terroristas islâmicos nessa peça de aventura cinematográfica, embora o terrorismo apresentado seja dos próprios compatriotas do presidente dos EUA travestidos de seguranças particulares dele. E esse ponto no filme nem é tão evidente para o espectador que só deixa de lado as referências discriminatórias quando as imagens postadas no youtube revelam a identidade do bando. Dessa forma, o fato do ataque se tornar um evento possivel de ocorrer naquelas bandas não deixa de fora a sinalização da ku-klux-kan, seita terrorista que não vê com bons olhos a presença de um negro na cadeira política nº 1 daquele país.
Embora seja descartável, o filme de Emmerich colabora com idéias para se pensar essas situações e demonstrar a falibilidade de seguranças aos personagens da atual história política norteamericana. Informo que tive minha dose de riso desse filme. (Luzia Álvares)
A DIFICULDADE DO ENCONTRO EM "A VISITANTE FRANCESA"
O roteiro de um filme é sempre uma tentativa, consciente ou não do autor, de sistematizar, cena por cena, a solução dos problemas técnicos e artísticos para a realização de um filme, antes e durante as filmagens. Em “A Visitante Francesa”, em cartaz até o final do mês no Cine Estação das Docas, o diretor sul-coreano de Hong Sang-soo (que também assina o roteiro) se utiliza da metatextualidade, numa relação de diálogo entre a escrita de um roteiro para cinema e o filme que se apresenta na tela, juntamente com a inclusão poética da própria narradora. Personagens e objetos que estão nas três histórias se inserem no tempo narrativo que experimenta, por meio de variações e repetições, a condução de histórias (como contos) escritas pela jovem Yonju, em pequenos textos escritos inicialmente para evitar o tédio e a ansiedade no aguardo de resoluções para problemas familiares. A dificuldade do encontro e as aproximações tímidas e desastradas que abrem e fecham as possibilidades de comunicação (tema explorado tanto pela Nouvelle Vague como pelo cinema de Michelangelo Antonioni), convidam o espectador a se afastar, nem que seja por 90 minutos, do olhar viciado em padrões da narrativa clássica que repetem estruturas já consagradas do ponto de vista da recepção estética. “A Visitante Francesa” aposta no cinema de experimentação, o que não quer dizer necessariamente inovação, pois o mérito maior do filme reside justamente na recriação de procedimentos que contam histórias em imagens. Novas situações em um mesmo cenário e os mesmos objetos dispostos em contextos diferentes fazem a marcação deste jogo intersemiótico, em que a garrafa quebrada, a barraca de camping, o guarda-chuva e o farol são elementos que se encontram devidamente enquadrados para reinventar outros caminhos narrativos, tais como: uma diretora de cinema a passar as férias na praia, uma mulher casada que vai encontrar o amante, e uma mulher divorciada, esta última a fechar o filme de forma instigante. O formato episódico com três histórias (como curtas), provoca o cinéfilo pela ordem e desordem do espaço fílmico, em que o diretor se vale do uso de elipses que desafiam nossa percepção, como na busca de um farol localizado num pequeno balneário e o que esta busca, de fato, representa. A aparição de um salva-vidas surge como um aceno, um sinal, que como os ensinamentos budistas do terceiro episódio, não respondem nada com a exatidão tão esperada. O farol, o salva-vidas e o monge budista são ineficazes para respostas prontas e frases de alívio. Se no primeiro episódio, a incomunicabilidade se impõe, de forma a afastar qualquer possibilidade de encontro; no segundo (podemos induzir), o encontro pode não acontecer naquele determinado momento e pode ser adiado; enquanto no terceiro, um encontro mais próximo finalmente se realiza, sem garantias de prolongamento e soluções finais estáveis. “A Visitante Francesa” é um filme sobre cinema, sobre a escrita de um roteiro que vai além dos movimentos descritivos que acontecem em frente à câmera. Além dos efeitos à exaustão do cinema contemporâneo, das simples indicações de gruas, iluminação, diálogos, entre outros procedimentos. (José Augusto Pacheco)
domingo, 18 de agosto de 2013
RECONSTRUINDO ELENA
Assisti ao filme “ELENA” (2012), da diretora Petra Costa completamente “no escuro”, desarmado e sem quaisquer expectativas. Não li nem a sinopse antes. As únicas referências que eu tinha era o instigante cartaz com a bela imagem da mulher de vestido florido sob as águas esverdeadas, os comentários dos internautas pelas redes sociais de que havia uma forte carga poética e ganhara prêmios no Festival de Brasília.
ELENA é muito mais que um documentário biográfico. É uma declaração de amor e talvez uma demonstração pessoal de como lidar com a dor da saudade. Sim, saudade, pois Petra Costa, muito habilmente, não nos passa apenas a ideia de uma Elena que “foi embora” e nunca mais retorna. Pelo contrário, o olhar da irmã caçula Petra em relação a sua irmã mais velha vai amadurecendo e traz de volta a figura desta sua quase heroica irmã Elena que tinha o sonho de tornar-se atriz. Sonho perseguido e alcançado como nos é mostrado através de fragmentos de cartas-áudio gravadas em K-7, vídeos caseiros e registros de apresentações do “Grupo Teatral Boi Voador” do qual Elena fez parte.
Nesse ritmo, Petra constrói o grande mosaico de uma história de vida. Sua tarefa parece desconfortável e árdua, porém compensadora no plano das emoções: Reconstruir Elena para que sua memória não se perca entre as tragédias da vida pessoal e as encenadas pela jovem atriz nos palcos do teatro. Essa coragem de expor a fundo suas próprias inquietações implica em reacender uma dor, tocar nas ferida da alma, confrontar-se com os porquês de uma ausência imposta e sem explicações convincentes.
Toda essa pluralidade de sentimentos é narrada e traduzida com grande sensibilidade e poesia que emocionam e ao mesmo tempo nos arremessam para a atmosfera da alegria-triste que é a saudade de ter convivido com alguém muito amado e depois ter que seguir a vida às custas da lembrança – essa palavra que a gente aprendeu na escola a classificar como substantivo abstrato mas que dói de tão concreto e pesado que é. A relação entre as irmãs foi tão intensa e simbiótica – a narradora Petra faz questão de conjugar o verbo no presente como se Elena ainda estivesse neste tempo: Elena é, Elena faz, Elena está... – que suas personas se confundem em determinado momento da narrativa. Intencional ou não, o recurso da linguagem poética aliada a excelente edição causa-nos essa sensação confortante e esteticamente bela. Revisistar os lugares que Elena viveu e percorrer os mesmos caminhos que ela andou é outra atitude de coragem de Petra e sua mãe Li An. Tal ação ultrapassa o mero tom documental.É como percorrer uma via crucis dessa paixão de/por Elena. E o ponto alto desses lugares ora reais, ora virtuais é a representação onírica das mulheres vestidas com roupas floridas submersas no riacho e levadas ao sabor da corrente.
Interpretações à parte, essa imagem que remete à Ofélia afogada e outras possíveis leituras é a arte como um lenitivo para a dor da saudade. Assim, Petra coloca sua amada Elena no status de arte. Apaixonantemente belo e ousadamente bem feito, Petra Costa mostra que o documentário não é um gênero chato ou preso à formulas como muitos ingenuamente acham. Elena é um filme para ser visto e revisto. (Elias Neves)
Toda essa pluralidade de sentimentos é narrada e traduzida com grande sensibilidade e poesia que emocionam e ao mesmo tempo nos arremessam para a atmosfera da alegria-triste que é a saudade de ter convivido com alguém muito amado e depois ter que seguir a vida às custas da lembrança – essa palavra que a gente aprendeu na escola a classificar como substantivo abstrato mas que dói de tão concreto e pesado que é. A relação entre as irmãs foi tão intensa e simbiótica – a narradora Petra faz questão de conjugar o verbo no presente como se Elena ainda estivesse neste tempo: Elena é, Elena faz, Elena está... – que suas personas se confundem em determinado momento da narrativa. Intencional ou não, o recurso da linguagem poética aliada a excelente edição causa-nos essa sensação confortante e esteticamente bela. Revisistar os lugares que Elena viveu e percorrer os mesmos caminhos que ela andou é outra atitude de coragem de Petra e sua mãe Li An. Tal ação ultrapassa o mero tom documental.É como percorrer uma via crucis dessa paixão de/por Elena. E o ponto alto desses lugares ora reais, ora virtuais é a representação onírica das mulheres vestidas com roupas floridas submersas no riacho e levadas ao sabor da corrente.
Interpretações à parte, essa imagem que remete à Ofélia afogada e outras possíveis leituras é a arte como um lenitivo para a dor da saudade. Assim, Petra coloca sua amada Elena no status de arte. Apaixonantemente belo e ousadamente bem feito, Petra Costa mostra que o documentário não é um gênero chato ou preso à formulas como muitos ingenuamente acham. Elena é um filme para ser visto e revisto. (Elias Neves)
sexta-feira, 16 de agosto de 2013
"O SELVAGEM DA MOTOCICLETA" NA SESSÃO CULT DIA 17/08
O cinema nasceu em preto & branco. As narrativas visuais dos irmãos Lumière, Thomas Edison, Mèliés, entre outros visionários, demarcaram de tal forma o entendimento sobre o poder da fotografia em P & B, que décadas depois da consolidação industrial do formato em cores sobre a produção cinematográfica, a opção em filmar em P & B continuou a seduzir novos e veteranos diretores de cinema, para a reinvenção do cinema moderno e contemporâneo. Durante a década de 80, o cinema industrial e segmentos da música popular se renderam às formas de infantilização do público, em meio à queda de ingressos nas grandes redes de exibição e a popularização do vídeo cassete. Neste período, poucos realizadores correram o risco de apostar numa estética visual que enfatiza os contrastes e cria outros de tons cinza e marcações de luz, para a concepção de novos filmes, novas histórias. Por outro lado, os anos oitenta ofereçam ao público um punhado de grandes filmes em preto & branco, como “O touro indomável”, de Martin Scorsese; “O homem elefante”, de David Lynch; “O desespero de Veronika Voss”, de Rainer Fassbinder; “Down by Law”, de Jim Jarmusch; “Zelig”, de Woody Allen, entre outras exceções. Durante o período de 1983 a 1984, Francis Ford Coppola dirigiu dois filmes sobre o tema da rebeldia juvenil e gangues rivais, em adaptações livremente inspiradas em romances de S. E. Hinton (“Vidas sem rumo” e “O selvagem da motocicleta”).
Depois da narrativa operística de O poderoso chefão I e II, das possibilidades visuais exploradas em “A conversação”, da odisseia cinematográfica das filmagens de “Apocalypse Now” e de realizar um dos filmes coloridos mais belos da história do cinema (O fundo do coração), Coppola não estava interassado em se repetir. Em “O selvagem da motocicleta”, Coppola recria o romance de Hinton adotando como procedimento o legado expressionista alemão, que abre e pontua o filme com imagens de nuvens carregadas que cobrem a cidade de Tulsa, a oeste de Oklahoma, onde o protagonista Rusty James está inebriado pela nostalgia de um tempo do já foi, do já era: o tempo das gangues de rua, tempo marcado pela lealdade que mais tarde sucumbiu ao avanço da então nova onda das drogas injetáveis. O tempo de Rusty James reclama todos os direitos da juventude, com seus excessos, namoro colegial, prazeres e riscos da vida urbana que dança ao som do funk, do jazz fusion, na grande farra noturna da cultura miscigenada. Na volta do motoqueiro, a desmistificação do irmão mais velho que podia tudo. A volta do grande líder que não quer mais liderar nada, não quer revanche nesta pequena cidade de vidros espelhados, ruas molhadas, sombras de escadas, fumaças e neon sob a bela trilha de Stewart Copeland. O mito da Califórnia como uma garota linda e viciada em heroína, remete à imagem das praias eternamente ensolaradas e da dimensão épica diante do mar, onde os peixes de briga lutarão eternamente contra a sua própria imagem. O mar, este elemento visual único, que resolve, por meio do corte final, a conclusão, ou não, de diversas adaptações para o cinema que se encerram com esta imagem poderosa, presente em tantos filmes.
Depois de “O selvagem da motocicleta”, a carreira de Coppola enfrentaria altos e baixos, com destaque para “Cotton Club”, “Tucker – um homem e seu sonho”, “Drácula de Bram Stroker” e “Tetro”.(Augusto Pacheco).
“ELENA” É UM FILME CONSTRUÍDO PELA EMOÇÃO E POESIA
"Elena" é um filme construído pela emoção e poesia. A diretora Petra Costa mergulha nas suas memórias e procura reencontrar sua irmã Elena que aos 21 anos cometeu suicídio. Petra tinha 07 anos quando a irmã morreu e ambas tinham um relacionamento amoroso intenso. No filme, de forma lírica e poética, a diretora procura reencontrar com todas as memórias possíveis resgatando gravações em áudio e vídeo da irmã, buscando respostas para sua saudade e para o vazio que a ausência de Elena deixou na sua família e para si própria. O filme é emoção pura, partindo da narração da diretora relatando seus sentimentos, passando pela montagem simples que revela ao espectador quem é Elena e como ela era vista pela mãe, irmã, amigos e chegando ao momento decisivo do que fazer com esta dor e este vazio.
Vejo que ao realizar "Elena", Petra Costa usou a arte para entender a sua dor. Uma dor que não passará nunca mas que pode ser controlada a partir da expressão, da confirmação, da interpretação do que foi Elena e de que forma isso pode ajudar a se seguir em frente, a valorizar o que ela deixou de bom, de intenso, de infinito. O filme de Petra Costa não tem medo de ser emotivo. É pura emoção, sim. Sem apelos, exageros, dramas vazios. É a vida como ela é e como isto pode afetar a vida das pessoas. Surpreendente, "Elena" é uma das grandes surpresas do festival de Brasília ano passado e finalmente chega ao nosso circuito. Não deixe de prestigiar este lançamento.
O filme está em exibição no Cine Líbero Luxardo até o dia 25/08.(Marco Antonio Moreira)
EDWALDO E O CINEMA
Muito se falou do Edwaldo (Didi) Martins nesse período que marca 10 anos de sua morte. Não se tratou do cinema. E era a paixão do amigo. Começou no jornalismo editando uma pagina sobre a tal “sétima arte” em “A Província do Pará". Rivalizava coma que Regina Pesce mantinha uma semelhante em “Folha do Norte”. Logo fundou a Associação Paraense de Críticos Cinematográficos com Acyr Castro, Rafael Costa, João Paulo Macedo, Ariosto Pontes e Alberto Queiroz. Nos finais de ano, quando a associação escolhia os melhores filmes do período, era quem contava os pontos das listas apresentada e brigava por suas ideias como a de que só se devia contabilizar os filmes exibidos nos cinemas comerciais. Meu primeiro contato pessoal com o Didi foi numa sessão do Bandeirante, meu cineminha caseiro, quando exibi “Um Domingo de Verão” de Luciano Emmer. Não sei bem o ano mas foi no inicio dos 60. Daí passou a frequentar minha casa onde tinha uma piscina. Gostava tanto dali que em um ano trocou a festa de réveillon de um clube que o convidara para ir passar a meia-noite lá nas águas da S.Jeronimo (hoje José Malcher). Também era ali que se fazia a eleição dos melhores filmes. Só uma vez foi no seu apartamento, na rua Benjamin Constant. O filme preferido do Didi era “Mompti” , melodrama francês que fora exibido no extinto cinema Nazaré. E como amava cinema tinha como um dos melhores momentos de sua vida a estada em Veneza, na Piazza S. Marcos, quando pediu para uma orquestra tocar “Summertime” a canção do filme “Quando o Coração Floresce” de David Lean. Falava muito disso. Creio que se tivesse a chance de viver o que o filme “Depois da Vida” projetou, aquela historia das pessoas recém-chegadas ao outro mundo filmar o melhor momento de sua existência passada, escolheria este. Diabético, não limitava sua rotina em que sempre havia rasto de glicose. Na verdade dizia amar a vida e com isso não se prender ao que mais cedo ou mais tarde a perderia. Antes que sofresse mutilações abdicou de tudo. E como num filme, partiu sereno. A gente que lida com cinema ficou sentindo a sua falta. Era de varar madrugada falando de filmes & estrelas. Elegia Marilyn Monroe a quem chamava de “Mariazinha”. E era extremamente franco, nunca prestigiando o filme cerebral que não tocasse seus sentimentos (“tocar meu passarinho”dizia). Já se vão dez anos sem o Didi. O fato é que permanece muito lembrado. Deixou muitos amigos. Inovou o colunismo social. Esbanjou sinceridade e por isso mesmo a sua lembrança é muito natural, muito fácil, muito característica de seu jeito de ser.(Pedro Veriano).
"ELENA"
“Elena” é um filme privado lançado corajosamente em público. Explico: a irmã da principal personagem fez o trabalho colando sequencias de filmes domésticos realizados desde que ela era criança (e a irmã, personagem-título, bem mais velha). Basicamente trata da busca pela tal Elena que se foi para os EUA| tentar o meio artístico. Não deu mais sinais de vida. Petra, a irmã, vai atrás. E a busca não dá conta das pouco mais de duas horas de projeção. O que interessa é o que sentia a cineasta, o quanto ela amava a mana. É impressionante como os filmes familiares deixam margem à difícil poesia cinematográfica. Não há palavras descrevendo os fatos. Na verdade Elena morreu –e dizem que se matou. Mas entre as lágrimas de irmã e de mãe estão as cenas da vida em comum e do sonho da jovem, perseguido sem se alcançar. Vendo este filme em seguida a “O Concurso” renovo meu respeito pelo cinema nacional. Sim, pois “O Concurso "é o que de pior se pode fazer com câmeras. Piadas gastas pelo uso, estereótipos da mesma forma, reprisam a pretensa comédia norte-americana “Se Beber Não Case”. Só que desta vez não se trata de casamento. Há sexo como nas pornochanchadas de todos os tempos, mas um Zach Galifianakis não existe. Ainda bem que o endereço às plateias descerebradas não é a única alternativa em programação. Há saídas como “Elena”. Mesmo que muitos espectadores saiam no meio do filme. Difícil se acostumar com cinema denso.
(Pedro Veriano)
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