sábado, 2 de julho de 2016

LEMBRANDO OS CINEMAS 1 E 2



Em 28 de junho de 1979 os cinemas I e II abriam suas portas. Alexandrino Moreira realizava um velho sonho, ele que na juventude foi projecionista do único cinema de sua terra natal, Itaúna(MG),e locutor de radio com programa dedicado a cinema(além de levar atores & cantores ao interior mineiro). Eu o acompanhei e o estimulava, pois na época mantinha um cineclube que atuava simultaneamente no Cine Guajará (Base Naval), Grêmio Literário Português (ambos com películas de 35mm) e auditório do Curso de Odontologia da UFPa(16mm).
A meta era trazer filmes de qualidade artística. Daí a empresa criada para administrar as casas chamar-se Cinema de Arte do Pará Ltda. O sucesso foi tanto que seguiu-se o Cinema 3 em 1989, duas salas no shpping Castanheira(as primeiras de shopping em Belém) e duas no espaço Doca (hoje shopping).
O Cinema 1 inaugurou com “Chuvas de Verão”, drama de Carlos (Cacá) Diegues. O cineasta veio à Belém com om roteirista Lepoldo Serran, tomar parte na festividade de abertura. O Cinema 2 contou com “Dersu Uzala” de Akira Kurosawa.
Eu programei os cinemas por mais de dois anos. Inclusive fazendo a publicidade para jornal. Mas não se podia alimentar aqueles espaços só com os clássicos de cineclube. Fechou-se contrato com a Columbia Pictures que na época saíra do concorrente Severiano Ribeiro. Mesmo assim havia brecha para obras raras de distribuidoras que não atingiam o Pará como a Sul e a Franco-Brasileira.
Os cinemas continuaram com a Cinema de Arte até o final do século quando a forte concorrência e a chegada de empresas nacionais como a Moviecom, forçaram o encerramento das atividades.
Ah sim: ainda existiu a locadora de vídeo Cinema IV, que Marco Antonio Moreira, filho de Alexandrino, passou a dirigir com a sua irmã Sandra.
Hoje a lembrança desse tempo é banhada de saudade. Mas ainda estamos ativos, mesmo com AGM (como Alexandrino se assinava) em outra vida. Cinema, afinal, corre nas veias. De minha parte é a vez do “Monstro” que cito no livro de memorias “O Médico Direito e o Monstro Cinematográfico” a ser lançado em agosto.(Pedro Veriano)

O AMIGO HINDU


O AMIGO HINDU
Plenamente compreensível o fracasso das exibições locais de “Meu Amigo Hindu”(2015) o filme de Hector Babenco. Só agora tive acesso a ele em cópia dvd. O roteiro é uma espécie de expiação do sofrimento que o cineasta sofreu com sua doença e tratamento. Portador de um linfoma, teve de fazer implante de medula óssea apelando para um irmão doador com quem não mantinha boa relação. E o longo trajeto entre hospital e espaço de convalescência, evidenciando o desnível na relação sexual, além da forte impressão de que caminhava para a morte, ganha a correspondência em imagens apoiando-se especialmente no ator Willem Dafoe, realmente bem colocado no que se exige do tipo.
Mas o filme é excessivamente particular, e as prioridades de lembranças seguem não o quadro clinico, mas o afetivo, tentando expor os sentimentos do enfermo, não oferecem embasamento para uma trama de cinema comercial. Nem chega perto do esboço da incomunicabilidade pintado por Antonioni em seus filmes mais festejados. Até mesmo a inclusão de uma figura que representa um enviado da morte(papel do ator Selton Mello), passa sem profundidade.
“Meu Amigo Hindu”é tão carente que o próprio titulo, com base em um menino que o doente vem a conhecer e que faz de confidente, não ganha a profundidade capaz de justificar a eleição de melhor lembrança.
Babenco é um argentino naturalizado brasileiro que entre nós fez bons filmes. Seu “Carandiru” saiu agora em nova edição dvd. Refeito do câncer, tenta a volta por trás das câmeras com muita pretensão. É compreensível o seu trabalho e sua sinceridade. Mas não comunica. Nem com os críticos que pedem cinema profundo sem exceção. Creio que dito assim compreendo o motivo de poucos espectadores por aqui no “Estação” e mesmo assim abandonando a sala antes do final ou saindo comentando a “chatice”.
Nem sempre apenas o que se sente possa ganhar filme. Há de se notar o que os outros também sintam.(Pedro Veriano)

CINE LÍBERO - 30 ANOS



CINE LÍBERO - 30 ANOS
Eu fui o primeiro programador do cinema Libero Luxardo(Centur). Na época era médico da Secretaria de Saúde e fui emprestado para a Secretaria de Cultura. Lembro de que a sala inaugurou com um documentário sobre Tancredo Neves politico que deu nome ao espaço cultural. O nome da sala para exibição de filmes (e também teatro) veio do então Secretario de Cultura, Acyr Castro. Como nesse tempo(1986) eu ainda mantinha o CineClube APCC que atuava simultaneamente no Cine Guajará da Base Naval, Grêmio Português e auditório do Curso de Odontologia da UFPa, conseguia bons contatos com as distribuidoras de filmes. Não existia dvd, engatinhavam as fitas vhs, e projeção digital era ficção cientifica. Pagava frete de filmes em 35mm . Às vezes o frete aéreo era mais caro do que o aluguel do filme., Mas como eu tinha credito nas filiais de distribuição e ainda mantinha coluna e pagina de cinema, dava para manter sessões cineclubinas que normalmente saiam de meu bolso. Programando o Libero, arrisquei meu prestigio, pois o pagamento das faturas era burocrático, atrasava e ainda tinha de cancelar títulos que entravam na programação de peças teatrais, fato que me fez renunciar a tarefa de programador dois anos depois.
Lembro de muitos filmes exibidos nos primeiros anos. Conseguia copias que as salas comerciais não queriam, como “Crimes e Pecados” de Woody Allen, e conseguia mostras de diversos países, a exemplo de uma da Polônia que contou com a presença do adido cultural da embaixada daquele país chamado Eugeniusz Zadusrski.
Bem, dos meus anos programando o cineminha que levou o nome de uma pessoa que eu conheci de perto, lembro com emoção momentos como um festival da Atlântida que consegui diretamente com Severiano Ribeiro em raras copias de 35mm. A abertura com uma palestra de Olavo Lira Maia, que foi Secretario de Cultura e amigo da família de Oscarito, foi sensacional. Um grupo de teatro armou a cena de um carnaval atirando no publico confete e serpentina.
Exibi raridades como “Berlim Alexanderplatz” de Fassbinder, dividido em partes que cobriam mais de 8 horas. E atendendo a estudantes, programava filmes de livros solicitados no exame vestibular como “Menino de Engenho”e “Capitu”. Era tanta gente que houve um acidente quebrando-se a porta de entrada.
Hoje a sala comemora 30 anos. O programa que recebi não é nem de longe o que se mostrou. Penso que do grupo só estão “Vá e Veja” e “Morte em Veneza”. Mas é certo que se deve passar coisas novas. Vale o esforço mas vale principalmente a programação de rotina que traz o que as nossas salas comerciais desprezam. Agora com projetor digital a locação é mais tranquila embora as distribuidoras, sempre ávidas por lucro, cobrem uma garantia mínima da venda de ingresso que muitas vezes só se paga com dinheiro da casa. Enfim, é o espaço de cinema-cultura que a não chega às salas de shopping, cada vez maiores em numero e sempre lembrando onde estão, ou seja,um detalhe de consumo, ou um parque de diversões.
Luxardo ficaria satisfeito vendo o cinema que leva o seu nome persistindo por 30 anos. Que somem outros tantos e tantos são os meus votos. (Pedro Veriano)

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Cineclube da ACCPA apresenta:

A ÚLTIMA ESPERANÇA DA TERRA. Com Charlton Heston.


A calmaria deste mundo desolado permite ao cientista alguns momentos quase surreais, como andar sem destino com seu Cadillac vermelho por avenidas totalmente vazias ou, só porque furou um pneu, trocar seu “modesto” automóvel por um clássico Mustang azul conversível.

Contudo,Neville é atormentado pelo silêncio absoluto, pela solidão e pela loucura iminente. Ao cair da noite, o cientista passa de caçador a caça, quando religiosamente é perseguido pela “Família” – o nome do grupo de mutantes é uma alusão bizarra ao caso Charles Manson (o filme foi lançado poucos meses após o julgamento de Manson e seus seguidores, que se autodenominavam “A Família”). Leia mais em http://bocadoinferno.com.br/…/a-ultima-esperanca-sobre-a-t…/

No Cineclube da Casa da Linguagem (Assis de Vasconcelos com Av. Nazaré). Dia 30 de junho, às 6 da tarde. Entrada franca. Debate após a exibição. Parceria com a Academia Paraense de Ciências.

segunda-feira, 20 de junho de 2016


O automóvel, interrompido em seus fluxos, em seu deslocamento, equipara-se ao tempo da casa. Quando o transporte do modelo para a exposição supera os problemas mecânicos, depara-se com os congestionamentos ou sofre colisões. 

Dessa maneira, o personagem Hulot faz parte, ainda que de forma um tanto quanto distanciada, da falência do projeto moderno: a máquina que conduz o homem, como metáfora do progresso, é impedida de prosseguir. Talvez a cena mais memorável do filme seja o momento em que, no cruzamento entre vias por onde passa o caminhão da Altra, ocorre um grande engavetamento. Leia mais em


Cineclube da ACCPA apresenta: TRAFIC, de Jacques Tati 
Cineclube Alexandrino Moreira – Casa das Artes. Nesta segunda, às 7 da noite. Entrada franca. Debate após a exibição
Trailer https://www.youtube.com/watch?v=-S2hRXV41S0

domingo, 5 de junho de 2016

CIRCUITO CINECLUBISTA COM A OBRA DE JACQUES TATI



O Cineclube da ACCPA (Associação dos Críticos de Cinema do Pará) programou dois filmes do cineasta Jacques Tati(1907-1982) em Junho. Tati é um dos grandes diretores do cinema. Sua carreira de cineasta começou em 1947 com "Jour de Fête" que lhe rendeu o prêmio de melhor roteiro no Festival de Veneza, na Itália e o Grande Prêmio do Cinema Francês em 1950."As Férias de Mr. Hulot", lançado em 1953 é um de seus melhores filmes e foi seu maior sucesso de público. 
Com “Meu Tio”(1957), Tati conquistou definitivamente o cinemaníaco pelo seu talento e criatividade. 
Apesar de seus sucessos, Tati ficou muitos anos sem filmar. Quando retornou com "Playtime", uma superprodução que lhe rendeu grande prejuízo, ficou em dificuldades financeiras que dificultaram novas produções. Em 1970 ele tentou se recuperar com "Trafic", mas apesar do relativo sucesso de público, ele anunciou o encerramento de sua produtora e promoveu um leilão dos negativos das suas obras. 
Jacques Tati morreu vítima de uma embolia pulmonar semanas após completar 75 anos em 1982. Em sua homenagem, “Playtime – Tempo de Diversão”(1967) e “Traffic”(1971) serão exibidos no cineclube Alexandrino Moreira nos dias 06 e 20/06 às 19 h com entrada franca e debates após a exibição. Confira! (Marco Antonio Moreira)

JODIA FOSTER POR TRÁS DAS CÂMERAS



Vivendo as experiências do cinema e de séries de tevê desde os anos 1960, Jodie Foster tem, em sua cinebiografia, atividades de atriz, de produtora, roteirista e diretora, sendo que em alguns desses trabalhos ganhou prêmios entre os quais dois Oscar – por “Acusados (1988) e “O Silêncio dos Inocentes (1991).
Como diretora comparece com quatro títulos, estreando em “Mentes que Brilham” (Little Man Tate, EUA, 1991), seguindo-se “Feriados em Família” (Home for the Holidays, EUA, 1995), “Um Novo Despertar” (The Beaver, EUA/Emirados Árabes, 2011) e o atual, “Jogo do Dinheiro”(Money Monster, EUA, 2016), ainda em exibição em Belém.
Apresentado no 69º Festival de Cannes, em maio de 2016, o filme tem um texto interessante em que o suspense e a crítica dialogam no tema que explora: o papel do âncora de um programa de televisão, Lee Gates (George Clooney) tratado como o “mago das finanças” do programa Money Monster cujo conhecimento é visto na perspectiva da certeza do jogo no mercado financeiro, estimulando os/as telespectadores a investirem nesta ou naquela empresa que ele aponta como segura. Sua auxiliar é a diretora de TV e produtora do programa, Patty Fenn (Julia Roberts) cujas atitudes decisivas repercutem nas posições do âncora frente às câmeras. Principalmente num momento trágico com a entrada em cena de umoutsider, Kyle Budwell (Jack O’Connell), que de arma em punho obriga o apresentador a vestir dois coletes com explosivos exigindo saber as artimanhas desse mercado que explodiu como uma bolha levando 800 milhões de dólares dos investidores e onde se achavam as economias do jovem. A justificativa do mercado é uma suposta falha dos computadores da tal empresacomandada por Walt Camby (Dominic West). Embora a emissora queira recolher-se para tratar do caso entre bastidores, o outsider precisa que a sua ferida seja escancarada e venha à tona a verdade sobre os responsáveis pela crise que submete milhares de pessoas. E prosseguem as cenas entre o sequestro do âncora, as buscas para chegar à verdade do fato através da explicação da empresa até o ato final da descoberta do real responsável pela crise.
Como se vê, há eixos importantes que Jodie Foster explora com a lógica da tensão de um filme de suspense. O primeiro, pode-se avaliar através da representação de uma mídia que hoje é vista como dominante na rede de intrigas das informações dadas em tempo real e disseminando o que quer e como quer em notícias que deixaram de ser simples entretenimento e passaram a subordinar o cenário jornalístico. A busca de novos espectadores e a necessidade de aumentar a atenção de outros, projeta os programas que tendem a garantir a audiência das classes sociais mais altas. A tendência, também é, principalmente, não deixar fugir os financiadores dos programas, ou seja, manter a submissão a estes a qualquer preço.
Outro eixo se observa no poder do apresentador de um programa. Seus tiques, entonações e captura de outras estratégias para garantir a audiência se objetificam, mas o centro motor da informação – no caso do filme – é tratado de forma omissa, pois, a notícia que é dada por Lee/Clooney em meio aos malabarismos cenarizados sobre a supressão da empresa do mercado de capitais que viabilizaria o processo de capitalização e que deixou na mão os investidores é repassada somente com a informação de que o CEO - Chief Executive Officer – estava viajando e os funcionários não tinham outro informe salvo a ocorrência de um transtorno nos algoritmos do processo de ampliação do capital. Nesse caso, qual a responsabilidade de quem dá uma notícia sendo esta uma meia-notícia? A informação devida ao público e em especial ao investidor que confiou nas certezas do apresentador torna-se um anexo e não é tomada com a responsabilidade devida pelo jornalista. Essa inversão de valores de certo jornalismo é confirmado por uma conversa da personagem de Julia Roberts quando diz aos seus auxiliares (considerando a situação do programa que se desenrola ao vivo): "faz tempo que não fazemos jornalismo".
Outro eixo é o formato da narrativa. O roteiro de Jamie Linden, Alan DiFiore e Jim Kouf constrói um cenário de ações bruscas, diálogos recortados entre os três personagens centrais e os que são, aos poucos, escalados para sintonizar na situação extrema do enredo. Os funcionários da empresa de tecnologia que misteriosamente entra em colapso, os operadores de imagens e áudio da tevê, as estratégias para entender o clima dooutsider na família, o uso de hakers para chegar à tecnologia que motivou o colapso, tornam “O Jogo do Dinheiro” um desenho mais forte do que se propõe no enredo. Não se trata apenas de construir o suspense mas aproveitar toda a ação para fortalecer a crítica. Se o mundo dos bastidores revela a superficialidade a denúncia às corporações de capitais que enganam o público explorando o mundo real evidencia a ganância em que estas vivem. E não só no mercado de ações, mas na mídia que não se interessa em enfrentar o caso que noticia.
Usando a estratégia narrativa de um programa de tevê, até o final, exibe os pontos abertos pelo roteiro deste a primeira sequência estabelecendo, através do diálogo – telespectadores que são capturados assistindo ao programa, o cenário & personagens da ação e os novos ambientes introduzidos para levar ao eixo final – o vínculo entre o que era visto como real e o desmoronamento deste pela pressão do outsider.
“O Jogo do Dinheiro” pode não ser um filme perfeito, mas constrói sua parte crítica explorando o entretenimento o que já lhe dá uma qualidade exemplar de ser inteligente.
Palmas para Jodie Foster. Valeu! 
(Luzia Álvares)


Arquivo do blog