sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

ACCPA DEBATE O "OSCAR" 2012

Depois do sucesso do ano passado quando realizou um grande debate com o público sobre o OSCAR 2011, a ACCPA (Associação dos Críticos de Cinema do Pará) este ano repete a ação e no dia 25/02, após a sessão Cult com o filme "BRINQUEDO PROIBIDO" no Cine Líbero Luxardo, realizará um debate sobre os indicados ao OSCAR 2012.
No debate, exibição de cenas dos filmes indicados, avaliação dos filmes e atores favoritos deste ano, críticas e opiniões sobre a importância do OSCAR e no final, sorteio de ingressos de cinema do Moviecom Cinemas, cartazes e outros brindes.
O debate tem entrada franca e terá participação de críticos da ACCPA.

ACCPA DEBATE O "OSCAR" 2012
SABÁDO DIA 25/02
CINE LÍBERO LUXARDO
HORÁRIO : DAS 17H ÀS 18:30 H
(APÓS A EXIBIÇÃO DA SESSÃO CULT COM O FILME "BRINQUEDO PROIBIDO")
ENTRADA FRANCA

domingo, 12 de fevereiro de 2012

A GAROTA COM TATUAGEM DE DRAGÃO

No dia 23/01 a ACCPA foi convidada para uma sessão cabine no Cinépolis, para ver “The Girl with the Dragon Tattoo”, nome original do filme “Millenium: Os homens que não amavam as mulheres”, filme baseado no romance Män som hatar kvinnor do escritor sueco Stieg Larsson.
O filme dirigido por David Fincher e estrelado por Rooney Mara e Daniel Craig. O inicio do filme é um show a parte com abertura no estilo das aberturas do 007, onde há um show de computação gráfica onde há somente mulheres e mãos pretas em uma dança agoniante que retrata bem o sentimento, que se vai ter durante o filme.
O filme tem duas linhas, uma é a vida de um jornalista Mikael Blomkvist que tentou denunciar um Mafioso com uma pista falsa e acabou caindo em descrédito e processado por difamação. Durante esse caos surge Henrik Vanger, um empresário de uma grande empresa Sueca, que propõe que ele investigue o Assassinato de sua sobrinha Harriet Vanger, que é um mistério, pois ela desapareceu em 1966, 40 anos antes de quando se passa o filme. E para isso ele precisa se mudar para uma ilha no norte da Suécia. O que torna tudo um grande mistério, é que enquanto viva Harriet dava como presente de aniversário, desenhos de flores para o seu tio e mesmo após a sua morte, ele recebe essas pinturas.
Do outro lado do filme está Lisbeth, que é no mais estereotipo possível de Cyber Punk, cabelo moicano, piercings e totalmente antissocial. Ela aparece na historia quando um empregado de Henrik Vanguer contrata uma empresa para preparar um Dossiê sobre Mikael e quem faz esse Dossiê é Lisbeth que é uma ótima Cracker – Vocês podem se perguntar a diferença entre Hacker e Cracker? Um Hacker é alguém que invade o derruba sistemas no proposito de expor algo para sociedade, a motivação é social e ou modifica softwares e hardwares para melhorar o sistema, um Cracker é o conhecido Pirata de Internet, ele invade da mesma maneira, só que para proveito próprio, com interesse de roubar informações para vender e não expor e também são eles que invadem contas e criam vírus. Informação baseado no livro de Himanen A ética do hacker e o espírito da era da informação.
Com a trama se complicando e mesmo 40 anos depois Mikael consegue descobrir coisas novas, ele precisa de uma assistente, que vem a ser Lisbeth, que passar os seus próprios dramas pessoais durante o filme, sem estar ligado à trama principal. O filme possui uma receita ótima de Thriller Holywoodiano, onde há assassinato, entraves amorosos, ódios, crises familiares, e uma complexa teia de informação em que só duas mentes com a de Mikael e Lisbeth trabalhando junto podem desvendar. O filme possui uma ótima edição e uma interpretação fantástica de Rooney Mara que está concorrendo ao Oscar 2012 como melhor atriz.(Raoni Arraes)

Ê Moço, já acabou?
A frase “Ê moço já acabou” seguida de outra frase “Qual é moço, tá de sacanagem comigo, vai dizer que acabou?” foram as frases ditas por uma senhora no fim do filme “Filha do Mal” – The Devil Inside – do diretor não tão aclamado William Brent Bell, pelo menos não depois desse filme. O filme que é estrelado pela brasileira Fernanda Andrade, merece o prêmio de melhor filme de comédia do ano! Humor extremamente refinado, me fez dar altas risadas, com cenas inusitadas e altamente cômicas.
O filme é sobre uma moçoila chamada Isabella Rossi, conjuntamente do documentarista Michael, resolvem fazer um documentário sobre exorcismo na igreja católica. O filme se inicia com filmagem do assassinato de dois padres e uma freira, assassinatos esses feitos por Maria Rossi, mãe de Isabella. Então depois de vários anos, Isabella tenta encontrar a verdade sobre o caso, e se formando um grupo junto com dois padres – Bem e David – que em meio as suas peripécias, tentam exorcizar pessoas (uma delas é a Maria Rossi, que é o motivo real do documentário), durante o filme. Tudo bem que eles só tentam duas vezes. A primeira exorcizada, que rola no filme é uma verdadeira trapalhada, melhor estilo de “Todo mundo em Pânico”. Então é basicamente um filme aonde uma moça vai atrás da mãe que tá possuída, se juntou com um documentarista e dois padres para salvar a mãe. O momento mais assustador do filme inteiro é o momento que um cachorro sem noção aparece latindo do nada, nem as partes que as contorcionista do Cirque du Soleil, aparecem fazendo bico, deixa o filme assustador.
Um dos principais erros de roteiro do filme foi, que a moça se junta com dois Padres, super iniciantes, ao invés de procurar especialistas como Constantine ou o Pastor Metralhadora. O Documentarista tem uma super câmera com estabilizador de imagem e um suporte para a câmera super eficiente, e ele ainda consegue fazer o milagre de deixar a imagem toda balançada e de vez em quando desfocar, sério os documentaristas devem se sentir ofendidos com um cara que diz que o estilo de filmes deles é todo tremido e cheio de desfoques. Imagina um escritor como Stephen King, deve se contorcer de raiva quando vê um filme de comédia, que era para ser um filme de terror. Não deu para levar o filme a sério, mas o filme ganha nota dez no quesito, “sangue falso”, “contorcionismo” e “comédia”.(Raoni Arraes)

A POESIA DE THEO ANGELOPOULOS

“O Passo Suspenso da Cegonha” (Grécia/ França / Inglaterra, 1991) do cineasta grego Theodoros Angelopoulos é , além de um belo filme, a poesia concebida por meio de palavras e imagens. O título da obra já desperta a curiosidade do que podemos esperar de uma história sobre buscas, reencontros e desencontros. Entendamos aqui a busca não apenas pelo outro – um misterioso homem (Marcello Mastroianni) considerado um desaparecido político, - mas também a busca por si próprio dentro de um espaço físico adverso e desconhecido, na disposição íntima em obter respostas e sentido à vida.
O tema sobre a busca é recorrente na obra de Theo Angelopoulos assim como a questão do espaço. Os lugares das histórias de Theo são as fronteiras, as demarcações, os limites, as pontes que separam territórios distintos e onde habitam ou transitam pessoas rejeitadas ou consideradas como ‘refugo humano’, ou seja, aquelas não aceitas seja por questões étnicas, religiosas ou políticas. Portanto, vemos a presente figura dos exilados e expatriados nos espaços fílmicos de Angelopoulos. Neste “espaço suspenso” de Angelopoulos (co)existem gregos, curdos, albaneses, islâmicos, fugitivos haitianos, crianças e mulheres; todos são personagens na cena do filme e esta problemática ultrapassa o caos social, a complexa topografia e geo-política, mas converge para questões pessoais e de ressonância universal.
O jovem jornalista Alexandre (Gregory Patrikareas) personifica este eu inconformado com a desarmonia do mundo, parece que ele sempre está tentando colocar ou achar a peça que falta no quebra-cabeça da vida e que pode ser a busca ou reencontro entre pessoas, a (in) tolerância entre os diferentes, as divergências político-ideológicas ou até um país em conflito. Uma tarefa por vezes inglória e ainda que não resolvida a bom termo, deixa a reflexão sobre o assunto para nós.
A suposta mulher do exilado (Jeanne Morreau) é apenas uma das pistas do mistério que Alexandre tenta desvendar. Um ponto de contato mesmo que obscuro, mas que vai conduzindo a trama até a marcante cena do reencontro com o homem desconhecido. Será que ele era realmente o ex-marido a quem ela tanto procurava ou ele mudou tão radical e profundamente que nem mesmo ela o reconhecia mais? Paira essa icógnita. Angelopoulos não dá respostas, apenas deixa-nos em passo suspenso para uma reflexão sobre o que pode vir após a vontade do eu, ou de uma simples tomada de decisão a partir do livre arbítrio.
Suas longas sequências conferem uma beleza ímpar, poética e minuciosamente trabalhadas, ora silenciosas, ora permeadas de música ou compostas de diálogos igualmente poéticos que só prendem a atenção.A exemplo disto, a cerimônia de casamento realizada dos dois lados opostos das margens de um rio fronteiriço, sob o temor da patrulha militarizada. Por outro lado, a poesia se expressa através de cenas cruéis e impactantes de silêncio eloqüente: o travelling mostrando os vagões abandonados de trens improvisados como moradia dos refugiados, os rostos sofridos e apáticos remetem ao holocausto – o que não deixa de ser a visão de um povo sendo sacrificado.
Angelopoulos demonstra predileção por ambientes frios e cinzentos com neve, neblina e chuva em seus filmes, e essa atmosfera parece igualmente acentuar a introspecção que ele nos sugere. O frio pede aconchego, contrai o corpo e nos voltamos para dentro em todos os sentidos. Será proposital ou coincidência? Ou um simples toque sensorial do diretor?
Angelopoulos sai bruscamente de cena, justamente num período da história mundial em que os conflitos atuais foram magistralmente tratados em seus filmes ora de modo delicado e lírico, ora de forma crua e realista. O cineasta grego fica eternizado em sua obra como um poeta da imagem em movimento e da eloqüência do silêncio. (Elias Neves)

domingo, 5 de fevereiro de 2012

"ROMÂNTICOS ANÔNIMOS" NO CINE ESTAÇÃO



O Cine Estação das Docas promove uma das obras surpresas do ano: a estreia de "Românticos Anônimos", do francês Jean-Pierre Améris, o mesmo diretor de "Eu me chamo Elisabeth" e "Más Companhias". De fato, é uma estréia com gosto de chocolate, já que os protagonistas estão envolvidos com este alimento feito com base na amêndoa fermentada e torrada do cacau.
No filme, Angélique Delange (Isabelle Carré) é uma talentosa confeiteira, que faz chocolates requintados reconhecidos pelo público e crítica especializada. Entretanto, Angélique prefere o anonimato e finge ser apenas uma entregadora, para depois ser surpreendida com o convite para jantar de Jean-René (Benoît Poelvoorde). O problema é que Jean-René, assim como Angélique, é extremamente tímido e possui muitas dificuldades em manter contato com outras pessoas.
"Românticos Anônimos" é mais do que uma simples comédia romântica, pois também foca os rumos dos relacionamentos amorosos nos dias atuais, as barreiras impostas no dia a dia, receios e acanhamentos. O filme foi indicado ao César 2011 (Oscar do cinema francês) na categoria de melhor atriz para Isabelle Carré.
Serviço:
Românticos Anônimos
Direção: Jean-Pierre Améris. Com Benoît Poelvoorde e Isabelle Carré. 80m. 14 anos
Datas em fevereiro: 2 (quinta): 18h e 20h30, 3 (sexta): 18h e 20h30, 5 (domingo): 10h, 18h e 20h30, 9 (quinta): 18h e 20h30, 10 (sexta), às 18h e 20h30, 12 (domingo): 10h, 18h e 20h30

sábado, 4 de fevereiro de 2012

HOMENAGEM DA ACCPA AO TALENTO DE THEO ANGELOPOULOS

Silencio na forma de imagens
ACCPA homenageia o talento do cineasta Theo Angelopoulos, com a exibição de dois filmes emblemáticos
Atropelado por uma moto. Assim deixou este mundo o homem que, através do cinema projetou um mundo vasto, cheio de complexidades, transmutadas na sua amada Grécia, mas explorando temas universais, que o tornaram premiado pelo olhar sensível e reflexivo. Ele era Theo Angelopoulos, que faleceu aos 76 anos no último dia 25 de janeiro – em meio as filmagens de “O Outro Mar” – e ganha uma merecida homenagem da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA), a partir de hoje com a exibição de “Paisagem na Neblina”.
Figura emblemática do novo cinema grego, iniciado na década de 1970, Angelopoulos foi premiado com a Palma de Ouro de Cannes, em 1998, por “A eternidade e um dia”, prêmio que abriu a prerrogativa para que os cineastas gregos conseguissem penetrar nos circuitos internacionais. Ele falava da Grécia e se confundia com a própria ideia de cinema grego, com filmes como o “Paisagem na Neblina”, que mostra dois irmãos que abandonam o lar em busca do pai, que fugiu para a Alemanha. A questão é que eles não sabem se o pai existem, e começam a empreender uma jornada dramática ao mundo adulto.
Já em “O Passo Suspenso da Cegonha”, filme que será exibido na próxima segunda, um jovem jornalista é enviado a uma região de fronteira, onde descobre uma cidade dividida por um rio, assim como seus moradores. Lá, ele encontra refugiados de diferentes países, que esperam a chance de sair daquele lugar – chamado de ‘sala de espera’ – e recomeçar a vida noutro lugar qualquer. Os dois filmes, realizados no final dos anos 80/começo dos anos 90, representam boa parte das crenças morais e estéticas de Angelopoulos. . Uma busca pela harmonia, pela felicidade, pelo sonho de ser, transformada em imagens etéreas e silenciosas.
“Angelopoulos foi um diretor que respeito o cinema como uma arte em busca de perguntas e respostas ao universo humano, usando as imagens como elemento estético de poesia tanto quanto os diálogos. Seus filmes são marcados pelas longas sequências sem cortes que dimensionam o roteiro e permitem que o espectador sinta a cena com toda a força dramática que tem. Sua sensibilidade de equilibrar longas sequências sem cortes, com diálogos cheios de poesia, silêncios com significação, gerou inúmeras cenas antológicas para o cinema”, frisou o crítico e presidente da ACCPA Marco Antônio Moreira.
Nascido em 1935, Angelopoulos foi uma crianças que sofreu com as atribulações da vida grega da época, com a II Guerra Mundial e a Guerra Civil, da qual o pai "desapareceu" depois de ter sido preso, episódio que marcou e a que muito anos depois, viria a revisitar, em mais de um filme, continuamente. A partida, o rompimento, o não pertencimento, são temas que tornam filmes como “Paisagem na Neblina” quase que autobiográficos.
Humanista e introspectivo, Angelopoulos teve seu estilo consolidado por esse filme singelo, que venceu o Leão de Prata no Festival de Veneza e foi eleito como melhor filme pelo European Film Award. “Exibido no Brasil somente nos anos 90, foi o filme que colaborou para revelar ao público brasileiro o talento e a genialidade do cineasta que anos depois realizaria “Um Olhar a Cada Dia”, uma das mais belas homenagens ao cinema”, acrescentou Marco Moreira.
Os grandes Marcelo Mastroianni e Jeanne Moreau estrelam “O Passo Suspenso da Cegonha”, realizado após o grande sucesso de “Paisagem na Neblina”, reforçando a qualidade do cinema de Angelopoulos ao tratar de um assunto ao mesmo tempo humano e político, revelando os anseios das pessoas que tiveram suas liberdades limitadas e que sonhavam com novos caminhos. “O Passo Suspenso da Cegonha” nunca foi lançado nos cinemas brasileiros.
Como o seu contemporâneo Costa-Gavras, Theo se deixou fascinar pelas luzes de Paris e pelas suas promessas de cultura e modernidade. Mas se Costa-Gavras ficou por lá, ele estudou antropologia na Sorbonne, cinema no IDHEC e voltou para sua amada Grécia. Dessa estadia na França, ele guardou – e utilizou a aprendizagem como discípulo de Jean Rouch num estágio no Museu do Homem. Angelopoulos referiu-se várias vezes a Rouch como sendo seu mentor, mesmo nunca tendo sido adepto do cinema direto protagonizado pelo mestre dos filmes antropológicos.
Theo Angelopoulos realizou 17 filmes (com esse que deixou incompleto por conta da fatalidade), contando a história e documentando a sociedade da Grécia contemporânea. Entre alguns de seus principais filmes, que merecem ser revistos estão “A viagem dos comediantes”, “Um olhar a cada dia”, “Viagem a Cítera” e a “Trilogia - O Vale dos lamentos”. (Lorenna Montenegro)

SERVIÇO:
Homenagem da ACCPA à Theo Angelopoulos.
Sessão Cult apresenta “Paisagem na Neblina”. Hoje, às 16h, no Cine Líbero Luxardo - Centur (Av. Gentil Bittencourt, 650). Entrada Franca. Inadequado para menores de 12 anos. Após o filme, debate entre o público e membros da Associação de Críticos de Cinema do Pará.
Sessão ACCPA/IAP apresenta “O Passo Suspenso da Cegonha”. Na segunda, dia 6, às 19h no Cineclube Alexandrino Moreira (IAP - Praça Justo Chermont, 236, ao lado da Basílica de Nazaré). Entrada Franca. Inadequado para menores de 12 anos. Após o filme, debate entre o público e membros da Associação de Críticos de Cinema do Pará.

"PAISAGEM NA NEBLINA"


"Paisagem na Neblina "

Paisagem na Neblina (Topio Stin Omichli, Grécia, 1988), dirigido por Theo Angelopoulos com roteiro dele, de Tonino Guerra e de Thanassis Valtinos, enfoca o drama de duas crianças, uma menina de 11 anos, Voula (Tania Palaiologou), e um menino de cinco, Alexandro (Michalis Zeke), que adotam atitudes de adultos e são lançados, sem nenhuma proteção, no mundo despreparado para compreender e cuidar da infância. Eles vão sendo oprimidos seguidamente quando buscam um sonho: encontrar o pai que estaria na Alemanha, na verdade uma mentira inventada pela mãe deles para tentar encobrir o que nem mesmo ela sabia: quem eram os pais das crianças?
Um filme introspectivo, para reflexão, não só pelo tema, mas, sobretudo, pelo ritmo narrativo cadenciado por longos planos, as imagens permanecem na tela sem mudanças significativas, verdadeiros planos-sequências, que condicionam o espectador, exige uma postura reflexiva durante a exibição sob pena de se achar o filme monótono; é dado tempo, pelo estilo do diretor, para que cada um seja absorvido emocionalmente pelo drama das crianças, seja inserido numa tragédia que se aproxima inexoravelmente, não há como se esperar um final feliz. A música é um componente sensível, em vários momentos amplia-se o som com função de reforço às imagens; chama-se a atenção do espectador sublinhando o visual com explícita pontuação sonora.
As crianças, sem bilhetes de passagem, tentam várias vezes até que conseguem entrar em um trem com destino à Alemanha. Este foi só o primeiro obstáculo a vencer, o mais fácil. São flagrados sem os bilhetes e por isso deixadas na primeira parada do trem com o responsável pela estação. Um policial leva as crianças para deixá-las com um tio, irmão da mãe, claro. Em conversa reservada com o policial, o homem esclarece a situação e diz que não pode ficar com as crianças. A menina, no entanto, ouve a explicação do tio sobre a paternidade deles e, revoltada, diz que é mentira, que o pai está, sim, na Alemanha.
Levadas a um posto policial, elas escapam no momento em que começa a cair neve e as pessoas vão para a rua contemplar o fenômeno. Recomeça, então, a caminhada rumo à Alemanha. Eles conseguem pegar outro trem, mas não por muito tempo, fogem da fiscalização e voltam a caminhar, a pé.
O sonho das crianças é explicitado em monólogos oníricos da menina, por trás das imagens e sobre elas. Em várias ocasiões explicitam as esperanças de encontrar o pai; algumas frases são dirigidas diretamente a ele, como uma mensagem.
Como a narrativa desenvolve-se ao longo de uma extensa viagem, de trem, de caminhão, de motocicleta e a pé, as várias paradas em diversos locais dão oportunidade à inserção de fatos e situações, alguns deles inusitados e que não estão diretamente ligados à história, mas que servem para enriquecer, ampliar o foco da trama. Angelopoulos faz incorporações com muita propriedade e sensibilidade, dando elementos adicionais para a análise do filme e que, por associação e dedução, se aplicam ao ser humano em geral em sua busca de significado para a vida.
Um grupo teatral de parcos recursos em busca de um local para se apresentarem surge no caminho das crianças, mais diretamente um jovem do grupo, Orestes (Stratos Tzortzoglou), que lhes dá apoio; eles se tornam amigos, Orestes está prestes a se apresentar para o serviço militar, ele tem uma motocicleta. Assim, os meninos se deslocam de trem, a pé, de caminhão e de motocicleta. Os garotos passam um tempo com Orestes. Depois voltam a caminhar sós.
Além das dificuldades inerentes a caminhada sem recursos e até por causa disso, vem a crueldade. A menina é estuprada violentamente por um caminhoneiro que havia dado carona aos dois viajantes que buscam um sonho irrealizável. Mas não desistem, continuam em direção à Alemanha.
Eles voltam a se encontrar com Orestes e a motocicleta passa a ser o meio de transporte dos três, antes de nova entrada em trem até a fronteira com a Alemanha.
Vão a uma praia, alegres pelo reencontro; Orestes tenta uma dança com Voula, mas ela não corresponde; na verdade a proximidade com o rapaz causa nela uma reação explosiva, ela se afasta correndo, abaixa-se à beira mar, brinca com a areia. Ela está mudando, está amadurecendo, é mulher. Algum tempo depois os dois meninos estão dormindo numa cama de hotel, Orestes está com eles, em outro quarto. A menina se levanta, sai do quarto, caminha até outra porta, abre-a e some na escuridão. O plano seguinte mostra uma cama vazia e a menina acendendo a luz. Novo corte e Orestes aparece, na rua, sentado diante do mar.
Destaco outro momento. Orestes com os garotos vai de motocicleta a um campo aberto onde dezenas de motoqueiros se deslocam da direita para a esquerda, da esquerda para a direita, para frente, para trás. Orestes vende o veículo, mas diz que só o entrega no dia seguinte, ele pretende levar as crianças na estação ferroviária. É uma sequência de muita movimentação externa, que vai terminar em um bar-boate, um ambiente de penumbra, fumaça de cigarro, pessoas se movimentando em ritmo de dança ao som de música, certamente um ambiente inadequado e carregado para as crianças, que estão numa escada, sentadas. Mas, o que há de mais chocante é que Toula vê Orestes se afastar com um rapaz, o comprador da moto; as imagens dão a entender que os dois vão ter um relacionamento íntimo.
Imediatamente após Toula ficar estática observando a cena, ela e o irmão aprecem na rodovia, caminhando, é noite. Orestes chega de moto, tenta se reconciliar com a menina, mas ela é radical. Continua a caminhada com o irmão e deixa Orestes para trás.
De um modo inusitado a menina consegue dinheiro, compra passagens de trem, e então não temem mais a fiscalização. Quando o fiscal chega ao compartimento onde estão, ela entrega-lhe os bilhetes, o menino está ao lado dela, os dois se olham, sorriem, finalmente podiam ir tranqüilos. No entanto, uma voz no alto falante do trem os traz novamente à dura realidade: “Por favor, passageiros com destino à Alemanha... preparem seus passaportes para o controle de fronteira”. As crianças olham para cima, para o alto-falante de onde vem a voz, parece não acreditarem no que ouvem: “Repito: por favor, passageiros com destino à Alemanha preparem seus passaportes para o controle de fronteira”. Há um corte.
A cena subseqüente mostra um soldado caminhando de um lado para o outro em uma parte elevada do terreno. Os meninos aparecem e cruzam a elevação tão logo o soldado se afasta. Descem no terreno. Uma torre de controle aparece, na parte superior um holofote se desloca iluminando o terreno com fachos de luz. A menina fala na escuridão: “Do outro lado do rio fica a Alemanha”. O foco de luz da torre passa e eles aproveitam e correm na escuridão. Agacham-se na base da torre. Eles correm e entram em um pequeno barco que está na margem do rio.
Centrado no sonho das duas crianças, o diretor e os roteiristas utilizaram, também, um recurso próprio do cinema: a incorporação da narração oral sobre as imagens filmadas. A menina Voula, em sonhos, relata o que se passa com eles, dirigindo-se ao pai ausente. Em um desses momentos, enquanto dorme em um banco de um bar e o menino de joelhos no banco olha para fora por uma janela, ela mesmo, ou melhor, a voz dela, complementa a cena: “Querido pai: Quão longe você está! Alexandro disse que em seus sonhos enxergava você muito próximo. Se ele esticasse a sua mão ele teria tocado você”.
Em outra ocasião, enquanto dorme em um trem, volta o complemento oral: Viajamos continuamente. Tudo passa rapidamente. As cidades, as pessoas. Mas às vezes nos sentimos muito cansados que esquecemos de você e não sabemos se vamos prosseguir ou retornar. E então nos perdemos. Alexandro cresceu muito. Ele se tornou muito sério. Veste-se sozinho. Diz coisas que você nem imagina. Eu, estes últimos dias, fiquei muito doente, fervia de febre. Agora, pouco a pouco estou melhorando. É uma longa caminhada até a Alemanha.
[...]
No final do filme, a voz de Voula é fundamental, repete palavras do início do filme e então, complementa o conjunto. Talvez a sequência inusitada mais significativa seja a que envolve os três personagens centrais próximo de um monte de lixo em uma rua. Orestes pega nos detritos um pequeno pedaço de filme, alguns fotogramas, olha-o contra a claridade, o menino diz que nada vê na película, mas Orestes insiste:
- Olhe com atenção.
- Nada
- Está vendo? Atrás da neblina. Atrás. Distante....Você não vê uma árvore?
- Não.
- Eu muito menos. Estava brincando.
Mesmo sem nada impresso, o menino pede o pedaço de filme e Orestes o entrega. Digo que é importante a sequência porque tem a ver com a cena final como se irá ver mais à frente.
Bem, voltemos ao ponto da narrativa no qual parei. Os meninos chegam à fronteira, um soldado-sentinela caminha de um lado para o outro, há um posto de controle, uma torre no alto da qual há um holofote cujo facho de luz se desloca pelo terreno à busca de intrusos. Há um rio, a Alemanha está do outro lado. As crianças correm evitando a luz. Um pequeno barco está na margem. Eles entram no barco que desliza lentamente pela água, afastando-se da margem em direção ao outro lado, à Alemanha. Está escuro, mas o facho ilumina o barco, há um grito de alerta e um tiro seco. Escuridão.
Então a tela fica totalmente clara, inicialmente sem imagem, só a neblina branca. Lentamente aparecem vultos. O garoto se levanta.
- Acorda, já amanheceu, estamos na Alemanha.
Aos poucos a imagem do menino vai se firmando.
- Estou com medo.
- Não tenha medo. Vou lhe contar uma história. No princípio era a escuridão. No princípio era a escuridão.
O menino continua olhando para a câmera, para o espectador, acena com a mão direita.
- Então fez-se a luz.
Ainda na neblina, a menina se aproxima do garoto. A música entra dolente. A neblina está se dissipando. Os dois olham para uma árvore, à frente deles, distante, agora eles estão de costas para a câmera. O garoto segura a mão da menina e os dois saem caminhando em direção à árvore. Uma lenta caminhada com a música acompanhando. Em dado momento eles correm. A câmera fica no mesmo lugar, eles agora estão longe. Encostam-se no tronco da árvore. É como se eles se fundissem à árvore, mas se destacam no tronco, são figuras escuras. A tela escurece, é o fim do filme.
Na verdade, no início do filme, na escuridão do quarto , após tentativa frustrada de entrarem em um trem, na hora de dormir, um deles narra o conto deles:
No princípio era a escuridão e depois se fez a luz. E a luz se separou das trevas e a terra do mar e se formaram os rios, os lagos, e as montanhas. E então as flores e as árvores, os animais, os pássaros.
Toda essa narrativa é feita com a tela escura. De repente um ranger de porta e uma fala: “Deve ser mamãe. Este conto não vai acabar nunca, sempre nos interrompem”.
Por baixo da porta o piso externo ao quarto aparece iluminado, ouvem-se passos. Alguém passa pela luz, a porta é aberta e o quarto recebe luz de fora. A claridade avança até as crianças, elas estão deitadas na cama, fingem que dormem. A porta é fechada, tudo escurece.
Paisagem na Neblina é belo, instigante, polêmico, cruel, poético. Imagens, palavras, sons diversos, música, todos esses elementos se encaixam, se harmonizam criando uma cadência, um ritmo narrativo formalmente adequado ao desenvolvimento do conteúdo. Para finalizar uma pergunta: a última sequência se passa após a morte das crianças, em um plano puramente espiritual, ou é um recurso próprio do cinema no campo do ideal imaginado pelos autores? Para mim cabem as duas interpretações, sendo que a primeira está mais para a lógica da narrativa, as crianças foram baleadas e morreram. (Arnaldo Prado Jr.)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

O HOOVER DE EASTWOOD

Edgar Hoover passou para a aferição de quem está de longe como um sacana que forjava o que fosse preciso para mostrar serviço. O que eu lia sobre cinema nos 50/60 encontrava adjetivos de latrina sobre o manda-chuva do FBI. Mas tinha um problema: nessa época, criticas e até mesmo livros/artigos sobre história do cinema eram manipulados por simpáticos a Moscou. Não vamos longe: “Histoire Du Cinéma” de Georges Sadoul era a bíblia dos que engatinhavam no estudo da falada Sétima Arte. E Sadoul era tão sectário que escrevia o diabo de qualquer filme produzido por gente de direita como Walt Disney . Essa linha ideológica de Edgar Hoover passou para o roteiro que Dustin Lance Black escreveu para o filme de Clint Eastwood. Mas com o cuidado de não cair em sectarismo narrativo, ou seja, puxar o barco para o seu porto. O escritor de “Milk” provou saber dançar o ritmo das biografias e fez o possível para mostrar os lados bons e maus do personagem. Afinal, quem não é bom e mau no correr da vida?
“J.Edgar” lembra em tese o “Cidadão Kane” de Welles. Não é preciso mostrar uma placa dizendo que a entrada é proibida para entrar em detalhes da vida de uma personalidade como o herói não diz palavra-chave ao sucumbir a um enfarte. Hoover foi um Kane muito menor. Em grana e caráter. Ambicioso a partir do incentivo materno quando criança, criou praticamente o Bureau de Investigações que na sua direção passou a ser Federal (ou FBI). Nessa qualidade, deu força à publicidade “natural” de seus esforços, sendo preciso maquilar trabalho para dizer que fez e aconteceu..
O filme tenta seguir a linha de cima do muro. Para tanto despreza a narrativa linear. Joga com o tempo para melhor exprimir atos e fatos. E nem sempre o faz de forma paralela. Seria até didático se mostrasse um Hoover velho contando bazófia e,logo depois do corte, ele fazendo cena para aparecer. Mas não: as mudanças seguem um ritmo. A base é o próprio biografado ditando a história de sua vida para um livro. Recurso que salva algum deslize temático.
Leonardo diCaprio deve ter incentivado a produção. Não é, decididamente, o tipo ideal para retratar o feio Hoover. Mas a maquilagem e a tecnologia hoje fazem um Boris Karloff virar um DiCaprio. É um desafio que o rapaz desejou (deve ter pedido a Eastwood)e que não se pode falar mal de todo. Quilos de cosméticos envelheceram o galã de “Titanic”, projeto que foi ainda mais corajoso do que o que fizeram com Brad Pitt em “Benjamin Botton”. E DiCaprio não se intimidou em beijar na boca Armie Hammer que faz o amante do personagem, Clyde Tolson(por sinal que a maquilagem de Hammer, ao “envelhecer, está mais para os filmes de terror da Hammer).Como gol da produção conta-se ainda, o aspecto plástico conseguido como uma fotografia desgastada, dando ênfase ao passado em foco, e a musica oportuna sem ser preciso buscar o ritmo dos anos dourados de Hoover como as canções de Gershwin ou Cole Porter.
Vi o filme sem consultar meu relógio (prova de que gostei do que vi). Aliás o octogenário Eastwood quase não erra o alvo. Embora ache melhor o anterior “Além da Vida” este “J.Edgar”procede como título de uma filmografia de bom nível e um desafio maior do que o “duo” sobre a guerra na Asia que inclusive deu margem a uma versão japonesa(“Cartas de Iwo Jima”)- com fala e tudo.
Ah sim: o filme não está no Oscar nem ganhou Globo de Ouro. Feriu susceptibilidades.(Pedro Veriano)

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