segunda-feira, 12 de setembro de 2016




A Era de Aquarius/“Aquarius” 
Por Marco Antonio Moreira

A memória como signo de vida. A memória como símbolo do passado. A memória como luz para o presente. A memória como referência para o futuro. “Aquarius”, novo filme do cineasta Kleber Mendonça Filho, é um filme sobre a memória. Mas não é apenas sobre isso. “Em “O Som ao Redor”( 2012), o diretor direcionou seu olhar para passado/presente numa história de relações de poder e classes sociais através de uma rua de Recife e seus diversos personagens. Em “Aquarius”, a personagem Clara é o príncípio, meio e fim de todo o processo narrativo. É através desta personagem que o diretor constrói um círculo de situações que tem diversas camadas de interpretação. Afinal, pelo estilo já demonstrado em filmes anteriores, Kleber Mendonça Filho é um autor que não se limita a ter um olhar cinematográfico para apenas uma direção. Seus filmes são carregados de situações, tramas, subtramas, personagens principais secundários, personagens secundários principais, sons, “closes” do som, músicas, canções, corpo,alma, gestos, olhares. Tudo e todos se misturam na construção de uma história que sempre é mais do que parece e que ganha vida através do Cinema em cada simples ou complexo enquadramento.
A primeira cena do filme, magnificamente bem dirigida, nos mostra uma festa de aniversário de 70 anos de uma mulher. O clichê do clichê aparece no discurso de todos os convidados e familiares. Mas esta personagem nos avisa imediatamente porque ela aparece na primeira cena. Ela agradece a todos pelas palavras, mas lembra (sim, é o início do uso desta palavra que aparecerá constantemente/discretamente/violentamente em todo filme) que ninguém citou Augusto, seu companheiro de muitos anos que faleceu há vários anos. E sem mais palavras diz que dedica aquele momento a Augusto. Este “cartão de visita” de Kleber Mendonça Filho nos introduz para a jornada/trajetória/odisseia de Clara, personagem interpretada com maestria por Sonia Braga. 
Clara é a última proprietária de um apartamento do edifício Aquarius (o nome do prédio já é significativo e pode gerar inúmeras interpretações sobre passado/presente/futuro com conceitos pós e pré anos 60). Uma construtora comprou todos os apartamentos do edifício e tem novos planos para o local (outro tema recorrente dos filmes pernambucanos : a “invasão” do "progresso" sobre a vida das pessoas), mas a insistência de Clara em permanecer no local gera problemas. A construtora tenta todas as formas para convencê-la a vender e iniciar vida nova. “O Prédio está vazio” dizem, mas Clara responde que não: “Eu estou aqui. Não está vazio”. Ou seja, eu (Clara) existo. Clara existe ali no seu passado/presente/futuro, em cada canto “vivo” do apartamento que lembra sua vida, família, filhos, netos. Clara existe no aparamento no sentido de viver/reviver através da música e seu infinito poder de lembrar o que somos/fomos/podemos ser (seus discos de vinil surgem como troféus de um tempo sobrevivido como o exemplo do disco de John Lennon - “Double Fantasy”). As cenas que Clara ouve suas canções preferidas são extraordinárias, seja quando ouve Gilberto Gil (numa cena comovente) seja quando ouve Queen (como forma de “lutar” contra o que lhe incomoda). A música como elemento de revolta/luta? Sim. Porque não? Afinal, Clara é uma pessoa de paz, de diálogo e sabe o que fazer e quando fazer para defender o que é e onde vive e pode/deve usar a música como elemento de resistência (os momentos felizes dela no apartamento incluem as canções que ela canta e interage com voz e gestos).
A forma como esta personagem é construída pelo diretor é brilhante, pois é uma personagem enigmática, mas que lentamente se revela pelas suas ações, poucas palavras e especialmente pela sua emoção (contida ou demonstrada). Assim é na cena em que conversa com várias amigas da sua geração numa festa que é um encontro de pessoas “solitárias” que falam e se repetem sobre tudo. Mas Clara é a única que (ainda) quer viver e se envolve com um homem na festa. A mesma emoção surge novamente quando ela conversa com os filhos e é pressionada pela filha para vender o apartamento. Clara é segura, emotiva, equilibrada, assertiva, e novamente diz não. Ela se emociona porque não entende tanta pressão inclusive de pessoas conhecidas como um vizinho que brincava com seus filhos e que agora, adulto, insiste de forma desrespeitosa que ela venda o apartamento para que todos os proprietários possam ficar bem. Mais uma vez, o individuo x “coletivo” (?!).
Essa personagem tem sua trajetória cada vez mais fortalecida diante do espectador. Quando pensamos que Clara está enfraquecida por tantas situações de pressão, ela ressurge. A cena em que ela presencia uma festa no prédio é significativa. Quando imaginamos que ela irá explodir, reclamar, proibir o que está acontecendo (sexo, bebidas, drogas), ela retorna ao seu apartamento e telefona para um garoto de programa. Vaidade? Não. Autonomia. Equilíbrio entre o que se vê (fora) e o que se sente (dentro). 
Esta é a Clara que nos permite entender que a memória é um elo que permite convivência entre o real e a ficção, o que foi e o que é (ou o que poderia ter sido), com a vida sonhada e/ou vivida, pessoas que nos alegraram/decepcionaram, sonhos/fracassos, enfim, memória como um sinal de vida que deve nos deixar alerta para novos desafios e é a favor disso que Clara não aceita vender seu apartamento para uma construtora que usa e usará todos os meios para convencê-la a sair.
“Aquarius” é um labirinto de temas que podem/devem ser explorados numa análise fílmica. A emoção de assistir um filme desta qualidade me leva a pensar que este belo trabalho/poesia de Mendonça Filho é também sobre a solidão, sobre a nostalgia (como ponto de referência e não ponto final), sobre valores ultrapassados e que ainda estão presentes na sociedade, sobre o cruel avanço do progresso que não leva em conta o individuo mas sim uma “coletividade” que interessa a poucos, é sobre as relações familiares (desejos/necessidades/vontades diferentes que às vezes separam e às vezes aproximam cada um). 
“Aquarius” é também um filme feminista. Clara é uma mulher independente, autonoma que tem visão crítica do que é ser e o que é ter através da suas relações com o passado/presente que mudam (pois a vida muda), mas que devem servir de base para (seja o que for) o futuro. 
“Aquarius” indica caminhos sobre como a memória deve se inserir na nossa percepção. Memória é liberdade desde que seja para pensar/sentir o mundo, seu mundo, meu mundo, o mundo de Clara. E sendo fiel com as características desta bela personagem, o final do filme é simbólico, poético, anarquista. O confronto entre o individuo e o coletivo, a mulher e o poder estabelecido (a construtora) num jeito “hippie” de ser (anos 60?), lembrando a era da Aquarius que tanto se esperava (espera) no comportamento e nas esperanças de gerações passadas. A era de Aquarius é a era da transição. A era da mudança. A era da revolução. É hora de se (re) pensar nisso? Um filme pode nos despertar para isso? Sim. 
Viva a era da Aquarius renovada pela memória de tempos vividos/perdidos/sentidos/sobrevividos. 
Viva “Aquarius”. 
Parabéns Kleber Mendonça Filho.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Programação Cineclube da ACCPA - Setembro/2016:



Cineclube Alexandrino Moreira (Casa das Artes) - 19 h*
"O Cinema de Abbas Kiarostami"
Dia 05 - "A Vida e Nunca Mais"(E A Vida Continua)(1991)
Dia 26 - "O Vento nos Levará"(1999)


Cine Líbero Luxardo - Sessão Cult *
Dia 03 - "Andrei Rublev"(1966) de Andrei Tarkovski - Homenagem aos 50 anos de um dos maiores filmes do Cinema. Sessão às 14h30min.
Dia 24 - "O Franco Atirador" (Homenagem ao diretor Michael Cimino) - Sessão às 15 h


Cine FIBRA (Auditório da faculdade FIBRA) - 18h
Dia 10 -  "Conrack"(1974) de Martin Ritt



Cineclube da Casa da Linguagem (Fundação Curro Velho) * - 18 h 
Dia 29 - "O Planeta Proibido"(1957)

Entrada franca 
*Debate após a exibição

domingo, 28 de agosto de 2016

Cineclube da ACCPA apresenta:


LADRÃO DE BICICLETA


O filme que parece melhor personificar a maioria ou todos os preceitos para um cinema realidade no período pós-guerra é Ladrão de Bicicleta, de De Sica. Neste filme, o ambiente conforma e em última instancia determina o destino de um personagem. O trabalhador desempregado, Ricci, é um protagonista neorrealista clássico: quase toda a força patética dramática é derivada desse simples fato que sem a bicicleta ele vai perder seu emprego de pregador de cartazes obtido arduamente; e, sem seu emprego, sua família será condenada a uma existência de privações numa Itália com desemprego generalizado e ainda atolada nos efeitos colaterais da desastrosa guerra que acabara de perder. Leia mais em http://cinemaitalianorao.blogspot.com.br/2016/07/a-saga-de-ladroes-de-bicicleta.html

O Cinema de Vittorio de Sica



Nesta segunda, às 7 da noite. Cineclube Alexandrino Moreira (Casa das Artes). Entrada franca. Debate após a exibição.
Centro de Estudos Cinematográficos apresenta: 



"O Cinema de Quentin Tarantino : A Violência é um espetáculo?"





Tarantino trabalha com filmes, gêneros e formas de fazer cinema, com uma distância crítica que incorpora a referência ao tempo presente do filme que realiza. Se em Jackie Brown Tarantino evoca a Califórnia dos anos 70, é porque se preocupa com a visão que se tem dessa época no tempo presente. Como os personagens que viveram ativamente aqueles anos estão hoje, no final da década de 90, na cidade de Los Angeles? Se em Pulp Ficlion ele alude a diversas épocas do filme de crime, é para olhar com ironia e reformular o gênero; é para mostrar como vários pressupostos do cinema do crime do passado não continuam necessariamente vigentes, como, por exemplo, a femme fatale, a paranóia, a cidade ameaçadora. Leia mais em file:///C:/Users/ASUS/Downloads/467-1233-1-SM.pdf
Nesta terça, 30, a partir das 6 e meia da tarde, na Casa das Artes. 


Com Marco Antonio Moreira e Arnaldo Prado Jr.

Inscrições gratuitas com emissão de certificado. 





terça-feira, 23 de agosto de 2016

Cineclube da Casa da Linguagem apresenta:

NO MUNDO DE 2020, com Charlton Heston



Há ainda várias cenas emblemáticas em todo o filme. A própria cena de morte do milionário, estranha e chocante ao mesmo tempo; a sequência absurda envolvendo a população revoltada, que é recolhida em tratores como se fosse resto de construção; a cena da igreja, em que o povo amontoado tenta se organizar e o padre, chocado pela revelação que conhecia antes do detetive, está completamente desorientado sem saber o que fazer. Ou a tocante sequência em que o amigo de Thorn vai para a chamada “casa”, uma espécie de lugar em que se dá entrada para morrer voluntariamente — porque a humanidade estava mesmo caminhando para extinção. 
Antológico. 



Direção: Richard Fleischer. (1973). 97m.
Dia 25, às 6 da tarde, na Casa da Linguagem. Entrada franca. Debate após a exibição.
Parceria: ACCPA com a Academia Paraense de Ciências.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Cine Olympia apresenta:
"PICKPOCKET: O BATEDOR DE CARTEIRAS"
De: Robert Bresson

Bresson antecipa um sentimento que se tornaria fortíssimo no cinema pós-maio de 1968: a errância distópica de Profissão Repórter, Badlands e O Último Tango em Paris. Aqui, porém, o reencontro com a epifania é mais do que possível; ele pode ser produzido pela arte. Michel vivenciou o sublime por três minutos, e percorreu os mais estranhos caminhos para encontrá-lo novamente. Leia mais em www.revistacinetica.com.br/pickpocket.htm

No Cine Olympia. Até 3 de agosto, às 6 e meia da tarde (exceto segunda, 25). Entrada franca. Apoio: Cinemateca Francesa
Projeto Cinema & Música apresenta:



O CORCUNDA DE NOTRE DAME, de Wallace Worsley



Hollywood durante a década de 20 era muito reticente quanto ao cinema de horror. Diferente do que vinha sendo feito na Europa, onde alguns clássicos do gênero já haviam despontado como O Gabinete do Dr. Caligari e Nosferatu – Uma Sinfonia de Horror, na terra do Tio Sam o gênero era pouco ou quase nada explorado. Foi nesse cenário que dois nomes fizeram história, começando por O Corcunda de Notre Dame: Lon Chaney e Carl Laemmle.  Leia mais em 101horrormovies.com/2012/11/08/6-o-corcunda-de-notre-dame-1923

1923. P&B / Mudo / 95 min.  Baseado na obra de Victor Hugo.


Nesta terça, 26, às 6 e meia da tarde. Acompanhamento musical: Paulo Campos de Melo. Entrada franca. 

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