O significado da palavra grega pathos como paixão, excesso, catástrofe, sofrimento, passagem, assujeitamento, parece ser a tônica dominante na narrativa e/ou talvez seja a essência do filme de Terrence Malick “A Árvore da Vida” (EUA, 2011). Aqui o termo pode adquirir uma amplitude de sentido e possibilita impressões várias ao longo do filme. Longe de ser catequético ou de impor um ideal religioso - apesar de seu tom espiritualista e metafísico, - percebe-se a sutileza de Mallick em alcançar ou corresponder a todos os olhares possíveis sejam eles criacionistas, evolucionistas, humanistas, teológicos, filosóficos, agnósticos e até estéticos. A árvore de Mallick parece ter galho para todos os sapiens sapiens sem distinção.
Os deslumbrantes planos sobre a origem do universo e da criação das espécies traduzem essa força de potência e assenhoramento do tempo (empregando aqui um bom filosofês dos pensadores) através do ciclo ad infinitum da vida. De onde viemos e para onde vamos? A filosofia tem se ocupado destas questões e o cinema também. A árvore de Malick é um pretexto para esta discussão. Ademais, a tumultuada relação entre pai e filho é o ponto de tensão e ressoa por todo o núcleo familiar ao mesmo tempo que a figura da mãe é a ponte que traduz o perdão, a graça e o amor – a equação colocada à prova no filme. A tão discutida sequência do big bang pode ser um simples capricho estético de Mallick – que aliás é muito bem-vindo, mas também impressiona quanto representação da mobilidade da vida.
A grandiloquência da fotografia em harmonia com a trilha sonora é um dos pontos altos do filme e suaviza o peso que é observar o dilema da personagem do pai que busca alcançar o melhor através das boas obras, mas Mr. O’Brien (Brad Pitt) chega à conclusão de que fracassou a vida inteira e não alcançou altas posições. Só considerava seu maior feito a família. A citação do Livro de Jó “Onde estavas tu quando Eu lançava os fundamentos da terra?” no início do filme é pertinente e tem-se a impressão que Mr. O’Brien é um Jó revisitado que, submerso em conflitos, busca entender os porquês de estar fazendo o bem e não ser recompensado à altura. A idéia de passividade e sofrimento em meio às vicissitudes da vida é reforçado.
A sequência do encontro na praia extrapola o tempo e o espaço incorporando um topos reconhecido somente por cada um de nós em nosso imaginário espiritual ou onírico. Poesia e discurso se mesclam nesta cena carregada de emoção sem qualquer traço de pieguismo, cumprindo singularmente uma catarse que também é papel da arte, no caso a do cinema.
Os comos e porquês de uma típica família estadunidense dos anos 50 que passa por dilemas pessoais, conquistas, perdas e faz reflexões sobre a existência pode ser considerado um tema universal. Assistir ao filme de Malick é desafiador pois talvez provoque em nós sentimentos e questionamentos que adiamos ou simplesmente tememos confrontar. A perda por meio da morte talvez seja o mais desconfortável dentre os assuntos tratados ao longo do filme
A Árvore de Terrence Malick não se esgota e rende muito assunto.Sempre será uma obra que divide opiniões e suscita outros tantos conceitos e pré-conceitos que suas imagens provocam na visão de cada espectador que se propõe a ver o filme por inteiro. Sim, assistir por inteiro sem abandonar a sala de cinema antes dos primeiros trinta minutos iniciais de projeção – aliás, fato este visivelmente constatado durante as sessões em que estive presente. Possivelmente, alguém achou que tratava-se de mais um filme com o galã hollywoodiano Brad Pitt no elenco principal.
Eu adorei o filme, outros detestaram! Mais uma vez, cada macaco no seu galho, como diz o ditado! (Elias Neves)
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
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